terça-feira, março 31, 2009

a bíblia de crumb

leio no guardian que o robert crumb vai publicar uma sátira do gênesis, o primeiro livro da bíblia, não aquela banda do phil collins. que coincidência: esses dias andei pensando que tem material de comédia ali. o que dizer do primeiro "não fui eu, paiê, foi ela!" da história da humanidade? quando eva ofereceu uma mordidinha do fruto da árvore do conhecimento ao adão, ele comeu numa boa, sem pestanejar (mas quem come pestanejando?). o efeito imediato foi que eles se deram conta de que estavam pelados, e tiveram que fazer umas tanguinhas com folhas de figueira. ou seja: o primeiro biquíni da humanidade. a primeira sunga. daí chega deus e os dois se escondem. 

deus: adão! que história é essa de se esconder?
adão: é que a gente tava pelado e...
deus: pelado? como você sabe que está pelado?
adão: ....
deus: você comeu o que eu disse que não era pra comer, adão?
adão: foi ela, paiê, foi a eva, a eva que me deu e eu comi porque ela me deu, foi a eva! buááá!
deus: evaaa? o que eu te disse?
eva: que não era pra comer o fruto da árvore do conhecimento?
deus: então?
eva: ué, mas a serpente disse que podia...
deus: ah, a serpente, é?
eva: ué, ela disse que tudo bem...
deus: arrã, e se ela diz pra você pular do décimo andar você pula?
eva: ....

o resto da história vocês sabem: diferenças salariais, técnicas de parto indolor, o instituto butantã.

sexta-feira, março 27, 2009

exercitar a observação

uma das coisas mais legais sobre escrever poesia, pra mim, é poder exercitar a observação. estamos no piloto automático quase sempre. nem registramos o que acontece ao nosso redor. escrever um poema nos traz para o momento.  

quando você se dispõe a observar, quase tudo merece o registro.

ontem vi dois namorados se abraçando na frente de uma farmácia. e me deu uma coisa! escrevi:

dois namorados
se abraçam
em frente à farmácia

gostei desse s que se repete: namorados, abraçam, farmácia. e o m também, agora me dou conta.

uma vez estava no laranjal tomando um mate. um carismático pássaro amarelo pousou no sinuoso galho de uma sensual árvore nativa. admirei-o. ó. 

o que o pássaro fez? o pássaro fez cocô. 

cascudo cósmico na cachola. não escrevi nada. como se diria em sp: emocionei.

ontem fui ao parque munida de um caderno, disposta não a escrever poemas, mas a registrar o que via. humildemente. como exercício.

não há ideias senão nas coisas, disse o william carlos williams.

o williams também disse que tanto dependia do carrinho de mão vermelho e das galinhas brancas, lembra? afinal, o que depende disso? 

poesia depende de poder enxergar isso. é o que penso.

mando minhas observações de ontem. e mando também abraços.


bahía blanca
um biguá nada sozinho
no lago

*

bate as asas
sob a bandeira argentina
toma sol
debaixo dela

*

as caturritas têm
um pedaço de plástico
solto na garganta

*

no fim do lago
os patos se espalham
feito óleo


(obs: minha mente avistou a bola rolando e veio correndo para brincar junto.)

*

o biguá
nada no lago
e faz barulho

quarta-feira, março 25, 2009

uma canção para o útero



sempre quis escrever um texto para minha amiga janaína kremer, atriz gaúcha que atuou em vários filmes (meu tio matou um cara, era uma vez dois verões, ainda orangotangos, cão sem dono, pra ficar em 4). esses tempos, confessei essa vontade para ela. a janaína adorou a idéia. então resolvi mandar, em primeira mão, um poema longo que estava escrevendo e que se chamava "uma canção para o útero". é o poema mais longo que escrevi, e talvez o mais complicado. enviei o poema esperando uma recusa, esperando que ela me perguntasse se eu estava maluca ou coisa parecida. mas ela gostou muito. a janaína chamou a letícia bertagna, que estuda artes lá em porto alegre, para criar um vídeo inspirado no texto. elas apresentaram o vídeo semana passada no pecha kucha night, em porto alegre. o poema é longo e ainda o considero em construção, portanto não o vou mostrar aqui. o plano é publicá-lo no meu próximo livro, que deve sair em 2011. nesse meio tempo, espero trabalhar de novo com a letícia e a janaína. // quanto a inéditos, deve sair uma série de poemas meus na próxima (e provavelmente derradeira) inimigo rumor. a última série que publiquei, em 2007, está na revista modo de usar e se chama "o livro rosa do coração dos trouxas". são dez poemas. se tudo der certo, este ano deveremos ver uma edição argentina do "rilke shake". falando em argentina, participo de uma antologia que saiu faz pouco, "el libro de los gatos", da editora bajo la luna.// e vou indo, cada vez mais devagar & sem saber aonde (alguém sabe de verdade aonde vai?), e cada vez mais convencida de que está bom assim. 

sexta-feira, março 20, 2009

voltar para casa depois de horas na rua, em busca de uma experiência esplêndida
inchando com ar o tórax, voraz com o ar no tórax, vivendo o momento
com as solas bem sujas no solo, com as solas bem pegadas ao pavimento
aleluia, porque eles querem minha cabeça baixa, me querem
comprando num shopping
procurando as últimas revistas

quem poderia caminhar assim na rua tão solta
com a cabeça cheia de zurrilhos

sentir a chuva no encalço
os pulmões cheios
querendo somente uma experiência esplêndida, voltar com ela pra casa
escrever um poema

escrever
escrever

escrever o quê, com a cabeça cheia de cenouras
de ceroulas de senhoras de cebolas de centímetros
de drummond



*

um ano mais tarde:

virar a chave na porta, deixar em cima da mesa
como três patos mortos a idéia do poema
repetir quantas vezes necessário
voltar pra rua até que aprenda


*

"você deve estar brincando", ela disse
e ela no espelho era eu
"se eu fosse verdade", eu disse,
"eu, eu, eu"

quinta-feira, março 19, 2009

para quem está em são paulo


20 de março a 21 de abril

de terça a sexta, das 10h às 21h30; sábados e domingos, das 10h às 18h30

Ana Maria Tavares, Fabio Lopez, Fabio Morais, Felipe Barbosa, Jorge Macchi, Laerte Ramos, Pazé e Pedro Di Pietro.

SESC Vila Mariana
Rua Pelotas, 141 - Fone: 5080-3000
De terça a sexta, das 9h às 21h30
Sábado, domingo e feriado, das 10h às 18h30

sábado, março 14, 2009

quinta-feira, março 12, 2009

bolsa-estupro

"O bolsa-estupro (PL 1.763/2007), se entrar em vigor, destinará um salário mínimo, até que o/a filho/a complete 18 anos, para a mulher que decida não interromper a gravidez resultante de um estupro, crime considerado hediondo pela legislação brasileira. Os outros dois projetos seguem a mesma linha. O projeto de lei 831/2007 do deputado Odair Cunha (PT-MG) pretende criar o programa de “orientação” nos hospitais para dissuadir as mulheres de exercerem o direito ao aborto legal. O PL 2.504/2007, do ex-deputado Walter Brito Neto (PRB/PB) obriga o cadastro das gravidezes em todas as unidades de saúde."

daqui.

tem este dado interessante também:

"Segundo dados do DATASUS/MS, 192.445 meninas de 10 a 14 anos tiveram filhos entre 2000 e 2006, no mesmo período, 105 meninas até 14 anos morreram em decorrência de gravidez, parto ou aborto, no Brasil."

*

a margaret atwood sabia das coisas quando escreveu "o conto da aia". fica aqui minha dica de leitura para estes tempos funestos.

quarta-feira, março 11, 2009

procuro meus próprios pés

apostasia, anyone?

continua repercutindo na imprensa brasileira o caso da menina de 9 anos que foi estuprada pelo padrasto, ficou grávida de gêmeos e abortou. a igreja católica excomungou a mãe da garota e os médicos que realizaram o aborto. muita gente ficou chocada. mas ninguém fala em deixar de ser católico. quando você é afiliado a um partido político, pode sair dele. por que não fazer o mesmo com a igreja católica? tenho pensado nisso depois de saber que, este mês, na argentina, um grupo de ateus, feministas e ativistas está organizando uma apostasia coletiva. de todas as pessoas que se afirmam católicas, quantas são praticantes, afinal? a maioria dos meus amigos foi batizada mas não vai à missa, nem está de acordo com as políticas da igreja católica sobre aborto, métodos contraceptivos, divórcio, etc. segundo o grupo da apostasia coletiva, a igreja usa seu enorme número de fiéis para pedir privilégios aos governos. além disso, fala em nome de seu enorme número de fiéis - praticantes ou não - quando se mete na vida de cada um, regulando o que se pode fazer com o corpo e sentimentos. talvez a gente devesse pensar mais sobre isso.

quinta-feira, março 05, 2009

num dos restaurantes podres em que tive de lavar louça, lá por 1993, quando decidi conhecer o mundo, havia um calendário desses com mulheres nuas e/ou mais ou menos nuas, em poses eróticas, na parede da cozinha. o cozinheiro volta e meia me perguntava por que eu não usava saia. pra lavar louça? eu usava os trapos mais velhos que tinha e era isso. mas não bastava limpar a cozinha, teria que mostrar as pernas.

transitando por alguns blogs, às vezes me deparo com a cozinha do restaurante paradiso. 

exibir mulher como um pedaço de carne no açougue: ainda hoje? poderia deixar pra lá, não fosse a sensação de que tenho muito menos liberdade que meus amigos homens. há lugares aonde não posso ir sozinha. bairros. países a evitar. mesmo dentro da minha cidade há horários. 

liberdade de ir e vir para mulheres: por sua própria conta e risco. 

gostava de viajar de mochila. aqui na argentina umas quantas mochileiras foram estupradas e assassinadas nos últimos anos. não dá para pegar carona sozinha. 

a julgar pelo paradiso, o lugar mais seguro pra mulher não é a cozinha.
 
ao escrever este post, pensei: será que adianta alguma coisa? pelo menos deixo registrada a minha opinião. daqui a três dias se comemora o dia internacional da mulher. estou aqui pensando no que isso significa.