sexta-feira, fevereiro 29, 2008



"in the name of the holocaust", de john cage

piano: margaret leng tan


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"quando escuto o que chamamos de música, me parece que alguém está falando, falando sobre seus sentimentos e suas idéias de relacionamento. mas quando escuto o tráfego, o som do tráfego, aqui na sexta avenida, por exemplo, não tenho a impressão de que alguém está falando. tenho a impressão de que o som está agindo e amo a atividade do som. o que ele faz é ficar mais mais forte ou mais fraco, mais alto ou mais baixo, e mais longo ou mais curto, faz todas essas coisas com as quais estou completamente satisfeito. não preciso que um som fale comigo."

*

"as pessoas esperam que escutar seja mais do que escutar. então às vezes falam de escuta interna ou do significado do som. quando falo sobre música, finalmente as pessoas compreendem que estou falando sobre som, que não significa nada, que não é interno, mas apenas externo. e essas pessoas que finalmente compreendem me perguntam: você quer dizer que são apenas sons? pensando que é inútil algo ser apenas um som. mas eu amo os sons como são. não preciso que sejam mais do que são, não quero que sejam psicológicos, não quero que um som faça de conta que é um balde, ou que é o presidente, ou que está apaixonado por outro som (risos).eu só quero que seja um som. mas não sou muito burro, havia um filósofo alemão muito conhecido, immanuel kant, e ele disse que há duas coisas que não precisam ter significado: uma é a música e a outra é o riso (risos). não têm de significar nada, isto é, para que nos dêem profundo prazer. "


de uma entrevista com john cage

rutas

as vacas pretas são aberdeen angus. estão bem grandes e pastam no campo que passa arrastado pela janela do carro. um dos maiores exportadores de carne, este país. logo se presume que as vacas têm poucos dias de pasto e luz. às vezes passamos por estas terras e não há vacas, às vezes há vacas pequenas e vacas médias e vacas assim por diante, e às vezes há girassóis, porque este país é um grande exportador de óleos. os campos de girassóis que vimos na ida a pehuen estavam secos, nada que ver com os campos amarelos, elétricos, fileiras deslumbradas apontando ao leste ou oeste como quando nos perdemos janeiro em chivilcoy.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

uma escritora beat

diane di prima no blog da modo.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

minha poeta querida

um poema da susana thénon traduzido por yours truly aqui.

sábado, fevereiro 23, 2008

"Hoje, eu posso estar errado novamente, mas eu aprendi que o risco de errar é um prato de doce e a certeza de estar certo é um prato de merda (risos)."

tom zé, em entrevista à revista bizz

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

não sou eu que estou gorda na foto. a foto é gorda. veja como tudo se amplia. o palo borracho baobá. gorda maldita, digo, indicador em cima do botão. eu tenho uma lomo con fritas.
o raio (rayo) vem de cima e mata. já a centelha (centella) entra pela janela e se espalha. mata em círculos. é assim com as vacas no campo. não sabemos nos cinemas.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

a felicidade é um revólver quente. um post sobre uma das músicas mais interpretadas da história das músicas interpretadas! uepa! com traduções de fabcalixto, ricdomeneck, margarcia e um jovenzinho chamado drummond.

o revólver quente seria uma injeção de heroína? seria uma bazuca? o que seria? e você, leitor, como traduziria? e você, leitor, vai bem?

a felicidade é:

a. ( ) como a gota de orvalho numa pétala de flor
b. ( ) uma coisa que foi simbora mas que em meu peito ainda mora
c. ( ) uma cabana nas montanhas, sem internet

elusiva, a fecilidade!

terça-feira, fevereiro 19, 2008

o post mais lindo do ano.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008



eu gosto mesmo é de andar de bicicleta com a zeli.
os mapas nos levam a qualquer lado
e nós os levamos no bolso
dobrados
os dedos roçam destinos secretos
B6 D4




vou pelo mapa
assim não atropelo
(ninguém?)




um cabelo se confunde
com a linha do trem




esta esquina aqui
é a própria dobra
um perigo: furada



a ruazinha não tem nome porque você passa por ela e nem a nota. mas a ruazinha tem quadras, casas, sacos de lixo amanhecidos e algum gato.

já esta rua deveria sinalizar os gatos.





no topo da colina
uma igreja para que todos a vejam




(o mapa não mostra a subida)





caderno de viagem
porto, portugal, 20-21 de novembro de 2007

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

SINFONÍA DE CUNA

Una vez andando
Por un parque inglés
Con un angelorum
Sin querer me hallé.

Buenos días, dijo,
Yo le contesté,
-El en castellano,
Pero yo en francés.

Dítes moi, don angel.
Comment va monsieur.

El me dio la mano,
Yo le tomé el pie,
¡Hay que ver, señores,
Cómo un ángel es!

Fatuo como el cisne,
Frío como un riel,
Gordo como un pavo,
Feo como usted.

Susto me dio un poco
Pero no arranqué.

Le busqué las plumas,
Plumas encontré,
Duras como el duro
Cascarón de un pez.

¡Buenas con que hubiera
Sido Lucifer!

Se enojó conmigo,
Me tiró un revés
Con su espada de oro,
Yo me le agaché.

Angel más absurdo
Non volveré a ver.

Muerto de la risa
Dije good bye sir,
Siga su camino,
Que le vaya bien,
Que la pise el auto,
Que la mate el tren.

Ya se acabó el cuento,
Uno, dos y trés.


Nicanor Parra

sexta-feira, fevereiro 01, 2008



gosto muito do allen ginsberg. gosto quando ele fala sobre seu método de escritura, sobre como escrever acontecia. ginsberg escrevia tarde da noite ou de manhã cedinho. "o mais importante é: quando a musa chamar, atenda." mesmo se for de madrugada. para isso vale ter um caderno do lado da cama. um gravador. a escrita vinha da persistência, da continuidade, da teimosia. durante muitos anos registrou em cadernos o fluxo de sua consciência e observações sobre o mundo ao redor. o publicável disso? 1%, 0,5%. numa oficina sobre o método do jack kerouac (existe em mp3) ginsberg disse que você precisa andar com caderno e canetas sempre, escrever sempre. "but you only hit on the nail once a month" -- literalmente, você só acerta o prego uma vez por mês.

fico olhando aqui para os meus cadernos, alguns cheios, outros quase, o caderno que comecei hoje, tudo provavelmente 0,5% aproveitável, talvez 0,3%, 0,2%.

nesse vídeo, ele diz: "zeus e trovões vêm quando querem, você não tem como convocá-los. são um produto das circunstâncias, do tempo, de sua história, de você mesmo, de seu metabolismo, de seus casos amorosos, de seu dinheiro, da sua falta de dinheiro, da sua comida, e suas drogas, e seus sapatos e seus brooks brothers e seu empire state building e a neve e a morte/vida de sua mãe. você não pode combinar essas coisas sozinho, você precisa esperar que a natureza arremesse uma grande onda."

acho que quase sempre é assim.