quarta-feira, fevereiro 28, 2007

capa da ilustrada, 24/2/2007
foto e mão: dona faleiros



Perdidos no espaço

Chegam às lojas livros de três jovens poetas brasileiros que têm em comum um jeito nômade de trafegar pelo mundo

JOCA REINERS TERRON
ESPECIAL PARA A FOLHA

Os poetas estão mesmo perdidos no espaço-tempo. Quando se trata de Angélica Freitas, Ricardo Domeneck e Marília Garcia, porém, essa errância espaço-temporal adquire gravidade ainda maior, graças ao peso da geografia. Os livros recém-lançados dos três exalam algo comum além da juventude dos autores, um estado quase nômade de trafegar pelo mundo sugerido nos poemas.

Não podia ser de outra maneira: Domeneck, 29, paulista de Bebedouro, é DJ em Berlim. Angélica Freitas, 33, "globetrotter" gaúcha nascida em Pelotas, está em permanente trânsito pela América Latina. E Marília Garcia, carioca de 25 anos, escreveu "20 Poemas para o Seu Walkman" entre um deserto mexicano, as palmeiras do Jardim Botânico e Nova York. Apesar disso, não existe nada mais anacrônico nos dias atuais do que um poeta. Por outro lado, pode ser que exista: e que tal três poetas juntos?

Numa de suas últimas entrevistas, João Cabral de Melo Neto afirmou não gostar da palavra "poeta": "Lembra um sujeito efeminado, compreende?", disse. A generalização não é mãe da verdade, mas admite pensar: se um de nossos maiores vates deixava-se vitimizar por preconceitos bobos, o que dizer da grande maioria das pessoas, aquelas que nunca ao menos "abriram" um livro de poesia? Que idéia podem fazer do poeta, essa figura tão passadista e ausente do ranking de celebridades deste século 21?

Parte da resposta está em "a cadela sem Logos", segundo livro de Domeneck, autor que tem angariado atenção por suas intervenções críticas. Tradutor de Lyn Hejinian e Rosmarie Waldrop, entre outros poetas americanos, e afeito a serializar poemas que dialogam com a pulsão ensaística a empurrar adiante seus artigos, Domeneck não exclui coisas de seu tempo dos textos ou seus textos das coisas de seu tempo, num claro desejo de intervenção à beira da performance ou de um ataque de nervos: "em berlim preparo-me/ para um ex-amante/ na alexanderplatz e/ digo há um/ oceano entre sua/ perda e a/ minha/ não/ este não é um/ desenredar-se/ mas um/ progressivo/ imiscuir-se".

Ex-estudante de filosofia, sua ânsia por dissipação (e há muito de erótico nisto) é igual à de seus semelhantes, sujeitos da mesma idade tencionando, idem, desaparecer em meio à tempestade eletrônica atual ou apenas no banheiro dos fundos junto de alguém.

Rimbaud sem bússola

Sumir no mapa de um país inexistente é também o plano de férias de Marília Garcia. Narradora de viagens perceptíveis apenas de soslaio, os poemas de Marília se perdem em baldeações que, às cegas, conduzem o leitor da Catalunha a Paris e de lá ao infinito. Àquelas sensações de perigo intenso vividas pelo viajante quando atinge latitudes desconhecidas sobrepõe-se o desvanecimento dos personagens: "não sabe para onde vai/ para que direção/ segue a estrada/ no livro perdido apenas um/ nome". Uma Rimbaud sem bússola sumindo na lonjura? Parece ser o caso.

A poesia de Marília Garcia aproxima-a de Angélica Freitas através da legibilidade, essa avis rara do mundo pós-poesia. Existem nas duas poetas referências obscuras e tradicionais piscadelas aos entendidos? Claro que sim, mas nada que comprometa a desorientação anunciada pelos poemas.

Angélica Freitas, sob outro viés, é uma poeta que sofre da mesma urgência que Leminski e Cacaso. Refiro-me, claro, à urgência do dizer, e não à de desaparecer precocemente. "Rilke Shake", seu livro de estréia, traz desde o nome uma ironia iconoclasta frente aos mestres da poesia que se estende a Mallarmé ("você sabe quantas pessoas morrem por ano/ em acidentes com o mallarmé?") e a outros ("vamos nos livrar de ezra pound?/ vamos nos livrar de marianne moore?").

Com predileção pela série de poemas (e não o verso ou o poema isolado que lhe sirva de base narrativa), Angélica lembra a poeta portuguesa Adília Lopes e flerta com a popularidade. Quem sabe não seja ela a permitir ao público reconhecer um poeta à primeira vista? Aposto que isso vai dar em paixão.
aquecida pelo sol

minha irmã acorda, acende
um cigarro, puts the kettle on
- she lives in london -
vai fazer café. faz café. toma.
a essas alturas não há mais
cigarro. minha irmã então
abre o pacote de pão
o pacote de frios - ham, salami
but mostly ham -
e faz sua marmita london, london.
vai para o trabalho. já está legal
- whatever that means -
e se prepara para terça, quinta
recusar as chicken wings.
minha irmã trabalha na recepção
fica em pé e não usa meias kendall.
diz que o ross do friends
não é simpático na vida real.
quando volta pra casa, liga a tv
abre os e-mails, me telefona.
está cansada mas pouco reclama
diz que é bom morar perto
do lemônia.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

haikai: uma coisa que não dá muito bem pra se fazer.
anotação do meu caderno,
estrada pelotas-porto alegre,
22 de fevereiro de 2007 19h30


na estrada
passei por um bode
que parecia meu gato

achei engraçado


*

são paulo, tô indo.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

segura:

datas de lançamento do "rilke shake": dia 10/3 no rio de janeiro e dia 12/3 em são paulo. quando tiver mais detalhes, escrevo aqui.

e estou planejando um lançamento em porto alegre.

e depois não sei mais nada. mas avisarei quando souber!

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

aqui caem de distintos cavalos
afamados mocinhos e cristas de galos
caem ainda e se crêem lindas
meia dúzia de mocinhas sem calcinhas
se for em são paulo lêem a folha
se fazem filhos foram atos falhos
se comem folhagem farfalham
falam muita bobagem não calam
até quando percebem chocados
que andam em bandos de bem-casados
caem dos cavalos com mocinhas ao lado
dormem vestidos acordam pelados

domingo, fevereiro 04, 2007

here's a poem from the moon



do "mighty boosh".