quinta-feira, novembro 30, 2006

What is that feeling when you´re driving away from people and they recede on the plain till you see their specks dispersing? It´s the too huge world vaulting us, and it´s goodbye. But we lean forward to the next crazy venture beneath the skies.

J.K., O.T.R.

quarta-feira, novembro 29, 2006

Acho que já consigo detectar o que me incomoda em poesia: o poeta que explicitamente não sabe do que está falando. Não sabe e nem parece querer saber. Faz um malabarismo de palavras pro além. Acontece todos os dias e há milhões de anos o mesmo show. Fala-se muito, publica-se mais ainda, mas, ora, o que dizem? Eu não entendo. Não entendo também a poesia feita nas coxas, sem envolvimento e sem propriedade. Ou a poesia cheia de firulas, de falsa sofisticação: diplomática, engasgada e bufa, como todo Rei guloso.

bruna beber, aqui

segunda-feira, novembro 27, 2006

Filme

Você pede para eu apertar o pause
E vai ao banheiro
Deixando ao meu lado
Seu cheiro quente
No travesseiro amassado.
Penso por um segundo
No texto que fiquei de escrever
Para uma revista de literatura:
"Se é possível conciliar experimentalismo formal
e lirismo na poesia
".
Ouço sua bunda desgrudar-se da tampa
Que bate seca e levemente na privada.
A descarga, a torneira ligada,
Imagino uma grande sequência.
- A preguiça tem algo de comovente nos dias úteis.
Você volta ao quarto dizendo
Tá me dando uma fome
Enquanto rimos da pose engraçada
Que o ator parou.
Antes de apertar o play
Chego a esboçar que algumas pessoas
São incapazes
De tirar a poesia do sério.

Marcelo Montenegro

quinta-feira, novembro 23, 2006

ADVERTÊNCIA AO LEITOR

O autor nao se responsabiliza pelas moléstias que podem ocasionar seus escritos:
Embora lhe pese
O leitor terá sempre que se dar por satisfeito.
SAbelius, que além de teólogo foi um humorista consumado,
Depois de haver reduzido a pó o dogma da Santíssima Trindade
Respondeu, por acaso, por sua heresia?
E se chegou a responder, como fez?
De que forma descabelada?
Baseando-se em que cúmulo de contradiçoes!

Segundo os doutores da lei, este livro nao deveria ser publicado
A palavra arco-íris nao aparece em nenhuma parte,
Menos ainda a palavra dor,
A palavra torquato.
Cadeiras e mesas sim figuram a granel,
Caixoes! Materiais de escritório!
O que me enche de orgulho
Porque, a meu modo de ver, o céu está caindo aos pedaços.

Os mortais que leram o Tratactus de Wittgenstein
podem bater com uma pedra no peito
Porque é uma obra difícil de conseguir:
Mas o círculo de Viena se dissolveu faz anos,
Seus membros se dispersaram sem deixar rastro
E eu decidi declarar guerra aos cavalieri della luna.

Minha poesia pode perfeitamente nao conduzir a nenhuma parte
"As risadas deste livro sao falsas", argumentarao meus detratores
"Suas lágrimas, artificiais!"
"Em vez de se suspirar, nestas páginas se boceja"
"Esperneia como um bebê de colo"
"O autor se dá a entender aos espirros"
Por isso: convido-vos a queimar vossas naves
Como os fenícios pretendo formar meu próprio alfabeto.

"Por que importunar o público entao" perguntarao os amigos leitores
"Se o próprio autor começa a desprestigiar seus escritos,
o que se pode esperar deles?"
Cuidado, eu nao desprestigio nada
Ou, melhor dito, eu exalto meu ponto de vista,
Me vanglorio de minhas limitaçoes
Ponho nas nuvens minhas criaçoes.

Os pássaros de Aristófanes
Enterravam em suas próprias cabeças
Os cadáveres de seus pais.
(Cada pássaro era um verdadeiro cemitério voador)
A meu modo de ver
Chegou a hora de modernizar esta cerimônia
E eu enterro minhas plumas na cabeça dos senhores leitores.

Nicanor Parra, poeta chileno
traduçao minha

quarta-feira, novembro 22, 2006

as frias da poesia

estou convencida de que o problema da poesia brasileira sao os poetas. me explico: nunca vi gente com tanta vontade de brigar. e é briga de bugio, aquele macaco que atira bosta. mesmo que você fique quietinha no seu canto, vendo os machos alfa se esfalfarem, em algum momento o cocô vai te atingir. essa é a única certeza da poesia brasileira. que um dia você vai portar um cocozao na cabeça.

por isso gosto de me divertir e de divertir os outros com o que escrevo. pra tirar algum prazer disso. por isso eu fico contente quando alguém me escreve pra dizer que gostou de um poema. a gente tem que saborear isso, porque afinal este é mundo é samsara e lá vem bosta na cara.

já reparou como é difícil falar EM NOME da poesia e nao virar instantaneamente cretino? a poesia tem que ser assim. a poesia tem que ser assado. rimar nao pode. nao pode respirar. nao pode gozar. nao pode isso, nao pode aquilo.

esses dias recebi um e-mail da liga das senhoras defensoras da poesia. me disseram que eu estava levando a poesia para a lama. entendo a apreensao dessas senhoras. se a poesia continuar a andar comigo, vai se sujar. melhor começarem a mandar a poesia pro parquinho embalada naquele plástico de enrolar frango assado.

o que vejo, pro meu gosto, é muita poesia sem sabor. sem graça. você lê e dá na mesma ter lido ou ter ido cortar as unhas. às vezes é mais útil cortar as unhas. e mais divertido!

ao mesmo tempo, nao vou lá dizer pro poeta: você é sem-graça. e pof, dê-lhe bosta. eu nao. problema é dele. ou dela. se eu nao gostar, nao vou ler. simples.

eu acho a poesia brasileira tao irrelevante que nem vale a pena brigar por causa dela. sério, qual é a relevância da nossa poesia dentro do nosso país?

a gente tem é que trabalhar mais. descobrir o que cada um precisa escrever. estamos dormindo nas palhas. o restante do mundo nem sabe o que é a poesia brasileira. o que vale é a música brasileira. em buenos aires, adriana calcanhotto é mais conhecida que qualquer poeta nosso contemporâneo. e aqui dentro, quem lê poesia? os poetas. e a família dos poetas, e os amigos.

eu é que nao vou comprar briga por causa disso. e acabou chorare.

terça-feira, novembro 21, 2006

A poesia contemporânea que me interessa é aquela que representa uma aventura intelectual, termo que prefiro a invenção ou experimental, muito desgastados e redutores. Há quem, por outro lado, se importe mais com a qualidade. Bom proveito, eu digo, bom proveito. Mas quanto a mim, para quê vou querer um sub-Yeats se já tenho o próprio Yeats? De poetas como ele só se imita o que é imitável, e isso é sabido desde a Aurora, mas o que importa é justamente o inimitável que há neles, ou seja, sua aventura intelectual. Quantos poetas contemporâneos no mundo produzem tal substância? Poucos, como em todas as épocas, mas existem, e são tremendos, Adília Lopes, Nicanor Parra, Tamara Kamenszain, Leopoldo María Panero, Nathalie Quintane, Michael Palmer, Dominique Fourcade e mais alguns. E no Brasil, quantos livros de poesia representam uma aventura intelectual? Pouquíssimos, mas existem, e são os que fazem diferença. Não publico um livro inédito de poemas há mais de dez anos porque não sinto no que faço essa força de que falo. E é claro que prefiro ficar mais dez,vinte, trinta anos sem publicar nada a seguir o modelo tradicional de publicar, a cada três anos, a cada quatro anos, aproximadamente, um volume que iluda seu autor com a sensação de existir e fazer parte disso que convencionamos chamar poesia contemporânea e cuja existência, pelo menos nestes termos, ainda está por ser provada.

Mas veja, veja aquela orquídea de fogo rasgada no breu desse quarto de hotel, no lençol desse quarto de hotel, em cuja janela me debruço ouvindo o ruído do aparelho de ar condicionado e o silêncio, volta e meia cortado pelo motor de uma motocicleta, ou vozes e passos dentro da madrugada. Você anotou todas essas coisas para que nãonos percamos? Onde está o seu bloco agora? E você agora? Por que espero tão impacientemente que aquele casal conversando e rindo três quadras mais abaixo desapareça imediatamentede meu campo de visão, suma de meu campo de visão, desapareça de meu campo de visão, continuity girl?

PS: É proposital que me desocupe inteiramente do "complexo de dna" de certas análises que se desviam do que é mesmo difícil de se abordar na poesia contemporânea, preferindo a facilidade tal-pai-tal-filho das afirmações do tipo: "filhos dos "concretos", "filhos de drummond", "filhos da marginália", "filhos da p.", "filhos de santo". (Em São Paulo anda na moda esse facilitarismo analítico em sua versão química (e não alquímica): "diluidor de concretos", "diluidor de drummond", "diluidor da marginália" etc). Não à toa meu brother Siscar já afirmou que o grande problema da maior parte da crítica de poesia contemporânea é, pura e simplesmente, seu gosto irreprimível por generalizações.


Carlito Azevedo, em discussao sobre poesia contemporânea no blog As Escolhas Afectivas. como diria whitman, and you may contribute a verse.

quinta-feira, novembro 16, 2006

COMUNICADO

À Gente Humilde se comunica
Que há Cebolas para Ela na Prefeitura de Sao Paulo
É possível ver as Cebolas por uma janela
Do pátio da Prefeitura de Sao Paulo.
Através das janelas do terceiro andar se divisam
Uns bebês em berços e nas que estao um pouco abaixo
Dá para ver algumas Cebolas para a Gente Humilde.
Para vê-las é preciso chegar num pátio
Num Pátio com duas Árvores bem verdes
Depois passar ao lado de uma jaula
Com uma caixa que sobe e desce
Depois de atravessar uma sala grande com piso de lajotas
E com telhado de vidro
Com umas mocinhas atrás de uns balcoes
Depois de subir umas escadas bem largas
Depois de passar por umas portas grandes
No fim de um viaduto que se chama
"do Chá", na esquina do lado direito
De uma estátua dum padre, de metal,
com a batina bem agarradinha ao corpo
para que nao a roubem nem a vandalizem.
Lá debaixo da janela dos bebês
Estao as Cebolas.
Nao sei se poderá conseguir
Uminhas.
O moço que pilota
o elevador, esse com as paredes de grade
Me disse que eram
para a gente humilde.

Depois disse alguma coisa sobre o Bolsa Família
Eu saí correndo pra comprar um mapa de Sao Paulo
e um computador portátil.


Rodrigo Lira (Santiago do Chile, 1949-1981)
per-vertido ao português por a. freitas para vossa comodidade

quarta-feira, novembro 01, 2006

sentada num muro em san pedro
como uma banana:
como a vida é bacana.