terça-feira, outubro 24, 2006

curaco de velez

o encanto das cidades pequenas:
filas de casas diminutas
e na janela de uma delas
um poodle vendo o movimento.
que é pouco. da porta pequena
da padaria
vem o cheiro de bolo.
paro para comprar
um berliner, um sonho
nao sai caro. 250 pesos.
vou para a plaza de armas
onde descansam escolares
estendidos noutros bancos. alheio
a tudo, o busto de um almirante.
morreu há 100 anos, o cobre
lhe conserva os bigodes. faz sol.
o chao desprende um calorzinho.
é praça mas nao há pombas
só flores amarelas.
vejo meu onibus passar
uma van que diz ACHAO.
nao levanto. dou outra
dentada no berliner.
e escrevo.

quarta-feira, outubro 18, 2006

rima com rodoviária

procedimento normal aqui no chile: de noite, o auxiliar do motorista do onibus vem e fecha todas as cortinas, nos tira qualquer sonho através das janelas, nos dá um biscoitinho e isso significa "durma". o estranho desta última vez, no trajeto santiago - villarica foi que o mocinho apagador da noite fechou minha cortina, depois pediu permiso e fechou o ziper do meu casaco até a altura do nariz, disse "nao se apaixone", me deu um biscoitinho e me mandou dormir.

*

estou em licán ray. licán ray é lindo. lago, montanhas. quase um poema de ana c. areia preta, vulcanica. estou ficando numa cabana de madeira onde moram duas amigas. incriveis, as duas. me sinto bem. e faz dois dias que nao tomo café.

quarta-feira, outubro 11, 2006

santiago

aqui estoy, no olho do furacao poético santiaguense. acabei de sair de uma leitura e já já pego o metrô pra uniao dos escritores chilenos pra acompanhar outra. na boa, é leitura demais pra minha cabeça, mas tô curtindo. hoje de manha fui à casa do neruda mas ele estava constipado e nao pode me receber. fora isso, foi um passeio lindo. tenho que correr agora!

sábado, outubro 07, 2006

fun, fun, fun

estou me divertindo muito em coquimbo com as poetas chilenas e argentinas. há uma poeta boliviana aqui também, a marcia mogro, que é um amor e autora da frase mais provocante de todo o evento: ao agradecer o convite, disse "obrigada por me convidar a ler em coquimbo, de onde posso ver o mar". para quem nao sabe, a bolívia perdeu sua saída ao mar, seu litoral, para o chile numa dessas pendengas históricas de 1800 e pico.

ontem li e curti muito. a romina freschi, poeta argentina, leu as traduçoes para o castelhano que o cristian de nápoli fez. quando li, quase nao me entenderam. as reaçoes só vieram depois da leitura da romina. o que tornou tudo mais divertido. esse pessoal está acostumado a leituras de poesia. prestam atençao, gostam. e depois vêm falar contigo, comentam teus poemas. sao supercarinhosos. podíamos aprender esse amor à poesia com nossos vizinhos?

uma coisa que me chama a atençao nas leituras é que a poesia argentina e a chilena sao bem mais expansivas que a nossa. a gente tende para o conciso, o enxuto e o brastempo. os poemas da maria medrano (argentina), por exemplo, sao de 3 folhas A4 impressas. sim, eu reparei. e em nenhum momento você se perde (óbvio, isso é uma qualidade da poeta).

outra coisa: as argentinas quase nao mudam de tom quando lêem, e as chilenas lêem a plenos pulmoes. as primeiras quase nao olham pra platéia, os olhos fixos no papel. as segundas olham pra você quando estao lendo. eu prefiro que olhem. aprendi a gostar disso depois de uma conversa com o chacal, em buenos aires. perguntei o que ele ia ler no festival salida al mar e ele disse: "nao vou ler, vou dizer os poemas". na hora pareceu exótico mas agora vejo que é muito mais power. e difícil, claro.

*

ontem fui a la serena com as poetas argentinas. vao dizer que só ando com as argentinas. mas sempre me perco das chicas del cono sour, sempre combinamos un mango sour e acabo seguindo mis amigas da terra de thénon e pizarnik. fiquei na praia com gabriela bejerman e romina freschi, molhando os pés no pacífico e escutando as conversas das gaivotas (que bichinhas barulhentas!). e só ontem fui notar como as gaivotas comem mariscos. é assim: esperam as ondas retroceder, pegam os mariscos, voam alto e deixam o bicho cair na areia. assim a concha se quebra e elas comem o interior. mas nao é de primeira, nao, elas tem que deixar cair várias vezes. aí bejerman olhou pra mim e disse: "imagina o que o marisco está pensando agora? puta madre, de nuevo noooooooooooooooooo!" eu disse pra ela escrever um poema sobre o assunto. falando nisso eu vou ali comer uns mariscos no mercado. aqui é o epicentro dos mariscos, como ela diz.

sexta-feira, outubro 06, 2006

las chicas del cono sour

como é lindo o pisco sour! e o mango sour, que beleza! e o mar quando quebra na praia! e a leitura da maria medrano foi sensacional, procurem no google, incrível, já virou histórica pra mim. ousadia dizer qual foi a melhor leitura da noite, com tanta gente boa, mas apontaria maria medrano, maria medrano, maria medrano e seus óculos retro!, domeneck, voce perdeu essa. pensei muito em voce. e pensei em tanta gente que teria pirado também, e que a gente precisa levar esse pessoal hispano hablante pra ler aí no brasil, seria sensacional, um impacto tremendo nas cabecinhas de todos; levar essa energia dos festivais latinos praí, e quando eu digo aí, nao quero dizer só sao paulo, nao quero dizer só casa das rosas; quero dizer porto alegre, belo horizonte e todas as cachoerinhas do sul e do norte etc. e escolas municipais, pracinhas e etc. aqui no chile eu quero portuguesamente mesclar o meu material poético com as nativas/os, leiam darcy ribeiro, é isso aí, fico devendo pra vocës um poema do pablo paredes, chileno, pra mim outro destaque da noite de ontem. agora vou a la serena.

ps: minha leitura é hoje.
pps: tem um monumento a neruda & gabriela mistral na praca (cedilha aí).

fui.

quinta-feira, outubro 05, 2006

COMO FAZER UM LIVRO DE POEMAS

1. escreva os poemas, quantos você quiser
2. dê um jeito de imprimi-los, ou pode escrever a mao, se quiser
3. faça cópias, pois as fotocopiadoras estao há muito tristes de pertencerem ao mundo corporativo & ou universitário
4. grampeie as páginas pois elas voam ao vento
5. faça uma capa
6. chame isso que você tem nas maos de LIVRO, é o mais importante a fazer
7. distribua, nao há livros sem pessoas. pode vender também.

AGORA VOCÊ ESTÁ ESPERANDO O QUÊ?

a companhia das letras?
o papai noel?
a reeleiçao do lula?
3 mil reais na conta?

FAÇA SEUS LIVROS!!!!!!!!!!!!!!!! YEAH!!
FAÇA O QUE VOCÊ ESCREVE CIRCULAR!!

eu acho que isso é uma das coisas que estamos precisando no brasil. isso e um festival de poesia.

*

estou em coquimbo, chile. o festival começa daqui a uma hora e meia. hoje de manha a poetada foi passear de barco (estamos no oceano pacífico). fomos até a ilha dos lobos. sim, lobos marinhos tomando banho de sol. muitos deles. o melhor foi quando alguém gritou ¡¡HAGAN ALGO!! ("façam alguma coisa!").

*

amanha conto como foi o primeiro dia de leituras.

quarta-feira, outubro 04, 2006

san pedro de atacama

ahhhhhhhhhh, que posso dizer, san pedro e uma das cidades mais importantes da minha vida,vim aqui pela primeira vez em 99, com pouquissima grana, pedi abrigo pro padre, que era gente fina e nos deixou ficar na casa paroquial quase uma semana. nos deu a chave e foi rezar missas pela regiao. ontem dei um pulo na paroquia, me informaram que os padres ficam no maximo 2 anos em cada cidade. pena. queria mandar mis saludos, meus e do marcelo noah. ontem dei um role pela cidade, ta a mesma coisa, so que com mais internet. fui ao adobe, bar que tem fogueira acesa todas as noites, pedi uma garrafinha de vinho e fiquei la, bebendo, olhando pro fogo e pensando que o marcelo deveria estar aqui tambem. hoje aluguei uma bicicleta, fui ate pukara de quitor, pertinho, uns 3 km daqui, sentei la nas ruinas com meu caderninho, escrevi, fiquei um tempao so olhando pro vulcao licancabur... que viagem para olhar. e o ceu daqui, voces nao imaginam, de dia um azul estupefaciante e de noite milhoes de estrelas graudas. ao entardecer as montanhas ficam rosa, depois roxas, azuis, e uma loucura. se voces ainda nao conhecem o atacama, deem um jeito de vir. vou la que as 14h15 parto pra calama, e a noite pego um onibus para coquimbo, e amanha tem festival.

segunda-feira, outubro 02, 2006

salta, la linda

rápida busca na internet me diz que a palavra "salta" vem de uma língua indígena e significa "bela". estou nesta cidade no norte da argentina desde as 23h30 de ontem. ainda nao saí do perímetro rodoviária, mas meu próximo esforço consciente será para isso. viajei o dia inteiro ontem, desde camargo até aqui. estava havia 2 meses em camargo e foi um choque ter de sair de lá. angélica, a apegada. a folha de sao paulo me diz que haverá segundo turno. eu digo: bem-feito pro lula. nao tenho idéia do que vai acontecer no brasil. o nick de uma amiga no msn confirma que ela está inconformada. mas dar de bandeja pro lula também é fogo. já cobri um discurso desse homem, numa fábrica de componentes eletrônicos em araraquara, e acho que sentar numa cama de pregos deve ser melhor, ao menos massageia alguns pontos de acupuntura. mas voltemos à salta. é a segunda etapa da viagem ao chile. pra chegar até aqui cruzei paisagens espetaculares, de montanhas, desfiladeiros, uma coisa filme de caubói, vacas na pista, cabritos na pista, porquinhos ao longe, homens com facoes tocando o gado, motoristas tocando o foda-se. você olha pela janela e pergunta se merece tanta paisagem. ouvi muita música chaquenha, inclusive a emocionante cançao sobre uma perda de amor nas orillas del guadalquivir (rio que corta, banha, lambe, whatever, tarija). el quinze deabriiiiil yo te conocí. no restante do tempo, tornei "just like heaven" do the cure a música mais tocada no meu ipod. em tarija peguei um táxi para bermejo, com uma senhora e sua filhinha de 4 anos. esta, por causa do calor, tomou 4 picolés e depois vomitou na viagem. na metade do caminho a paisagem já tinha mudado completamente, muito verde, deixando pra trás algo que a globo poderia aproveitar como cenário quando fizer uma novela caubóica. verde, verde, insetos. estou toda mordida de borrachudos. o táxi pegou outro passageiro na estrada, um rapaz suado que mascava coca. em bermejo tomei um litro de limonada e segui viagem. cruzei a fronteira da argentina numa chalana, vendo a água limpa e os peixinhos glubglub lá embaixo entre as pedras. o guarda na alfândega viu meu passaporte, disse "hmmm, brasssssssilera" e depois me contou ser descendente de brasileiros. "¿en sério?", perguntei, mas o que eu ia perguntar? ele apalpou minha mochila e me deixou passar. falando em passar, vou deixar este locutório e descobrir as lindezas de salta. tenho um dia só. amanha às 7h embarco para san pedro de atacama, no chile. a última vez que estive lá foi em 1999, com o marcelo noah. dormimos na paróquia local.

*

ando o tempo todo com a última frase de um poema da elizabeth bishop, "arrival at santos": "we are driving to the interior".

leiam o poema aqui, é lindo.