quinta-feira, março 30, 2006

dia 6/4


quem: Ana Rüsche (autora de "Rasgada", Quinze & Trinta Edições, 2005), Angélica Freitas (cujo livro de estréia, "Rilke Shake", sai pela 7 Letras + Cosac Naify até o fim do ano), Daniela Ramos (poeta inédita e tradutora de Henri Michaux), Dirceu Villa (autor de "Descort", Hedra, 2003), Heitor Ferraz ("Coisas Imediatas", 7 Letras, 2004), Fabiano Calixto ("Fábrica", Alpharrabio Edições, 2000), Luiza Mendes Furia ("Inventário da Solidão", Giordano, 1998), Marcelo Montenegro ("Orfanato Portátil", Atrito Art Editorial, 2003), Mateus Novaes (autor do inédito "Desistência") e Virna Teixeira (poeta e tradutora, publicou "Distância", 7 Letras, 2000, e "Visita", 7 Letras, 2005). e o flyer é de dona faleiros.

ESCOLA POPULAR PRESTES MAIA
ciclo de comunicações
O DIREITO À CIDADE


Caminhos de resistência às práticas de exclusão social nas grandes metrópoles

A cidade se furta, se blinda e se ouriça contra muitos daqueles que nela vivem. Seja pelo desemprego estrutural, que transforma contingentes populacionais cada vez maiores em refugo humano, seja pela ineficiência dos poderes públicos em garantir o atendimento às necessidades básicas (educação, saúde, moradia) ou ainda pela hostilidade de certos setores da sociedade civil em relação às camadas de baixa renda, a verdade é que cresce assustadoramente o número de exilados em sua própria cidade, forasteiros absolutos.
O presente ciclo de comunicações pretende oferecer uma visão desses fenômenos de perda do “direito à cidade” a partir de diferentes disciplinas (geografia, direito, psicologia e literatura), buscando contribuir teoricamente para a construção de uma cidade mais justa e solidária.

Data: dia 1 e 8 de abril de 2006, das 15h às 19h.
Local: Subsolo da Ocupação Prestes Maia
Avenida Prestes Maia, 911 – Luz – São Paulo – SP

Inscrições gratuitas (limitadas ao número de vagas)
pelos telefones 3221-4775 e 9315-1654 ou pelo e-mail
fweintraub@uol.com.br
Organização: Fabio Weintraub e Pádua Fernandes
Apoio: Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC), Biblioteca Comunitária Prestes Maia e Integração sem posse


Programação

1.º de abril, sábado

15h00: “Eu não tenho onde morar: literatura e vida nas ruas”.

(Bruno Zeni)

João Antônio e Carolina Maria de Jesus foram dois escritores que conseguiram expressar, na literatura, inquietações e dificuldades que são típicas da cidade grande, um lugar onde nem sempre se consegue viver com dignidade. De origem humilde, João Antônio (autor de Malagueta, Perus e Bacanaço) e Carolina Maria de Jesus (autora de Quarto de despejo) conseguiram publicar livros e alcançar reconhecimento como escritores. Os textos que eles escreveram estão impregnados de autobiografia, experiência de vida e reflexão sobre a pobreza. Os livros de ambos traduzem a revolta e a esperança que existem nas ruas, mostrando que a literatura também é importante como uma casa, e a escrita pode ser um abrigo, um lugar no mundo.

Bruno Zeni é jornalista, escritor, mestre em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Autor de O fluxo silencioso das máquinas (2002).

16h00: "Memória da casa: memória da hospitalidade".

José Moura Gonçalves Filho)

Uma casa é feita de parede e colo. As casas ficam interrompidas no bairro de gente subordinada. O bairro proletário é diferente de ambientes íntegros e também diferente de ambientes arruinados: é bairro impedido de perfazer suas formas e práticas. O impedimento econômico (a espoliação e a privação de materiais) é vinculado ao impedimento político: a dominação. Contra o empobrecimento e a dominação, os moradores buscam casa onde encontram hospitalidade. Hospitalidade é socorro e comunidade, é colo e convocação. A construção de um bairro tem fundamento psicológico e político. A hospitalidade, remédio contra a humilhação, vai então fundar lutas coletivas, vai fundar a participação e as altivas lutas por conquistas também econômicas. Um caso concreto: Dona Léia e as mulheres da Vila Joanisa.

José Moura Gonçalves Filho é doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP, onde também leciona. Psicólogo social, psicanalista, é autor de Humilhação e Memória: alguns elementos para o exame psicológico de um sofrimento político (no prelo).

17h00 “O Direito e a criação do espaço urbano”.
(Pádua Fernandes)

O autor falará da maneira pela qual os instrumentos jurídicos podem, na regulação do espaço urbano, favorecer a criação da moradia formal, ou, pelo contrário, dificultar o acesso à cidade e levar ao aumento da informalidade.

Pádua Fernandes é doutor em Direito pela USP e professor universitário. Autor de Para que servem os direitos humanos (no prelo), O palco e o mundo (2002) e organizador de A encomenda do silêncio, antologia poética de Alberto Pimenta (2004).

18h00 “O nacional, o regional e o setorial”.
(Aziz Ab’Saber)

Uma abordagem crítica da classe política, que conhece pouco das questões nacionais e das regionais, e possui, na sua grande maioria, uma visão sumária das setoriais, como educação, saúde e saneamento básico.

Aziz Ab’Saber é professor emérito da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da USP, especialista em Geomorfologia, Geografia Urbana e Econômica e Biogeografia. Foi presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). Atualmente, é pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP). Autor de, entre outros livros, Os domínios de natureza no Brasil (2003), Amazônia – do discurso à práxis (2004), Ensaios Entreveros (2004), Litoral do Brasil (2005).

8 de abril, sábado

15h00: “Entre a habitação e a propriedade: o conflito entre direitos sociais e individuais”.
(Sonia Rabello)

Debruçando-se sobre o eventual conflito entre direitos sociais e direitos individuais no campo da habitação, a autora busca apontar, na dinâmica urbana, as possibilidades de um consenso, de uma saída jurídica para a oposição entre esses dois tipos de interesse, ambos legítimos.

Sonia Rabello é professora titular de Direito Urbanístico da UERJ. Foi Procuradora-Geral do Município do Rio de Janeiro, chefe do departamento jurídico da FUNDREM (Fundação da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, Procuradora-Chefe e Diretora do Patrimônio Material do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Autora, entre outros trabalhos, de O Estado na Preservação de Bens Culturais - O Tombamento, (1991) e organizadora da Coletânea da Legislaçao de Direito Administrativo (2001).

16h00: "Literatura e Direitos Humanos".
(Ricardo Lísias)

A comunicação se apoiará nas idéias gerais do ensaio “Direitos humanos e literatura”, situando antes seu autor, Antonio Candido. A partir de algumas afirmações feitas nesse ensaio, será discutida a questão dos direitos humanos em um âmbito geral e o caso particular do Edifício Prestes Maia.

Ricardo Lísias é doutor em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, professor universitário, crítico e escritor. Autor de Cobertor de Estrelas (1999), Capuz (2001), Dos nervos (2004) e Duas praças (2005).

17h00: ”A cidade da poesia”.
(Sérgio Alcides)

Cidades e poesia são coisas complementares, embora nem sempre harmônicas. Se faltam poetas a uma cidade, há algo de errado com ela. Mas nunca faltam cidades a um verdadeiro poema, nem que sejam a cidade de onde fomos exilados (como a Roma de Ovídio), a cidade celestial para onde gostaríamos de ir (como a Jerusalém de John Milton), a cidade que nos aliena (como a Paris de Baudelaire) ou a que nos devora (como a "cidade dos lázaros", de Augusto dos Anjos). Numa cidade, a poesia tem o papel oposto ao das televisões que em São Paulo se espalham pelos botequins, pelos restaurantes e até pelos pontos de táxi. O tanto que a televisão suga da vida interior e da responsabilidade de cada um, a poesia o devolve, sob a aparência de um convite que é, no fundo, um desafio.

Sergio Alcides é doutorando em História na USP. Mestre em História Social da Cultura pela PUC-RJ. Professor universitário e tradutor. Autor, entre outros trabalhos, de O ar das cidades (2000) e Estes penhascos: Cláudio Manuel da Costa e a paisagem das Minas [1753-1773] (2003).

18h00: “A escrita e os excluídos”.
(Alfredo Bosi)*

A oralidade sempre teve um lugar de destaque nas diversas formas de manifestação culturais das classes populares. No entanto, é possível identificar, na dinâmica dos valores vividos em contextos de pobreza, motivações que levam à atividade social da leitura e da escrita. Mas como o excluído entra no circuito de uma cultura cuja forma privilegiada é a letra de fôrma? O relato de uma experiência de leitura com um grupo de operários de Osasco.

Alfredo Bosi é professor Titular de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP, e membro da Academia Brasileira de Letras. Crítico e historiador de literatura, Bosi é autor, entre outras obras, de História concisa da literatura brasileira (1970), O ser e o tempo da poesia (1977), Céu, Inferno: ensaios de crítica literária e ideológica (1988), Dialética da colonização (1992), Machado de Assis: o enigma do olhar (1999) e Literatura e resistência (2002).
mudança & uma lembrança
d'alemanha

o gato sobre a caixa de papelão
cheia de livros
quer entrar
não encontra canto
fuça
mete a cara
cavouca
ei minhas edições raras
abro a caixa ao gato
tiro o dicionário langenscheidt
o gato se acomoda
lambe as patas
vai dormir
eu abro o dicionário langenscheidt
quero entrar
não encontro canto
me acomodo
vou dormir

quarta-feira, março 29, 2006

esperamos vocês lá!
não percam

ricardo domeneck na germina! dossiê com poemas, entrevista e resenhas. ricardo é autor de "carta aos anfíbios" (ed. bem-te-vi, 2005) , é paulista de bebedouro e mora em berlim. divide o tempo entre as atividades de dj e poeta. foi ele quem concebeu a leitura corpo a corpo com a poesia, que rolou na casa das rosas em fevereiro. e vem aí a segunda edição da leitura! nos próximos dias divulgaremos o escrete. a escrete? oh dear.

terça-feira, março 28, 2006

very soon
amy cutler, rations


namorada

morar junto
nem pensar

.

2

na amurada do navio
tchibum

.

segunda-feira, março 27, 2006

en español

sai no fim de abril a coletânea cuatro poetas recientes de brasil, da editora black & vermelho. tô lá, ao lado da elisa andrade buzzo, do joca reiners terron e do ricardo domeneck. pra mim é uma honra ser publicada com esses três.

o convite partiu do poeta argentino cristian de nápoli, que participou da leitura corpo a corpo com a poesia, organizada pelo domeneck em fevereiro. cristian traduziu os nossos poemas. e a editora b&v é dele e do washington cucurto, os dois à frente da eloísa cartonera.

o lançamento vai ser durante a feira do livro de buenos aires. minha leitura está marcada para o dia 1.º de maio. o joca também vai ler.

outros eventos rolarão em território argentino, mas avisarei quando chegar mais perto. ooh, mistérios. mas mistérios trilegais. aguardem, chicos.

um poema que o cristian traduziu:

agosto la octava conejita de la playboy
o el templo dorado de kinkakuji
o un gato y un pato en un cesto

a mi abuelo no le gustaba agosto
decía agosto mes de disgustos
cuanda pasaba decía ahora no me muero más

sábado, março 25, 2006

Abobrinhas não

Cansei de ouvir abobrinhas
vou consultar escarolas
prefiro escutar salsinhas
pedir consolo às papoulas
e às carambolas
pedir um help ao repolho
indagar umas espigas
aprender com pés de alho
sobre bugalhos
ouvir dicas das urtigas
e dessas tulipas
um toque pro miosótis
um palpite pro alpiste
uma luz da flor de lótus
pedir alento ao cipreste
e pra dama da noite
pedir conselho à serralha
sugestão pro almeirão
idéias para azaléias
opinião para o limão, pimentão
abobrinhas não

Itamar Assumpção
em breve !

sexta-feira, março 24, 2006

note to myself 1: nunca mais vou beber cerveja. (veja bem, isto é um avanço e uma concessão: antes eu tinha escrito: não vou beber nunca mais.) eu precisava de um chamego, uma agüinha de coco e uma pomadinha canforada no terceiro olho. uy. zarrrepio nas sobrancelhas. água de coco terei, na embalagem que escolherei!

note to myself 2: itamar assumpção é gênio.

presente: ontem ganhei do meu amigo igor o livro "in the sixties", do barry miles.

At the beginning of the sixties Barry Miles was at art school in Cheltenham; at the end he was running the Beatles' Zapple label and living in New York's legendary Chelsea Hotel. This is the story of what happened in between. In the Sixties is a memoir by one of the key figures of the British counterculture. A friend of Ginsberg and Corso, Miles helped to organise the 1965 Albert Hall poetry reading. He co-founded and ran the Indica Bookshop, the command centre for the London underground scene, and he published Europe's first underground newspaper, International Times (IT), from Indica's basement. Miles' partners in Indica were John Dunbar, then married to Marianne Faithfull, and Peter Asher. Through Asher, Miles became closely involved with the Beatles, particularly Paul McCartney, and In the Sixties is full of intimate glimpses of the Beatles at work and play. Other musicians who appear in its pages include the Rolling Stones, the Pink Floyd, Leonard Cohen and Frank Zappa. But Miles' greatest love is for the written word and his book includes memorable portraits of Allen Ginsberg, William Burroughs, Charles Olson, Richard Brautigan and Charles Bukowski. This is the book that everyone interested in the sixties counterculture has been waiting for. The real story, from the inside.

a real: num güento mais computador. e vou cancelar o speedy logo. mas claro, isso também tem a ver com a minha mudança para o sur. e vamos cancelando as coisas. só não dá pra cancelar a vida, diz meu amigo marcelo noah.

quinta-feira, março 23, 2006

meu poema "família vende tudo" tá no eraodito!

obrigada, marcelino, e eta maravilha!
my daily dose of bliss: a primeira frase do "the heart is a lonely hunter", da carson mccullers:

In town there were two mutes, and they were always together.

gênio. esse é o primeiro romance dela, escrito aos 23. peguei pra ler hoje. li alhures que a jovem carson havia se mudado para ny, pra estudar piano na juillard. mas perdeu a bolsa em que trazia o dinheiro da matrícula. não entrou pra juillard. diz a lenda que essa dor burraldina fermentou e transformou carson em escritora. e o título, ah, é maravilhoso. se informem, googlem a carson.

bom começar o dia assim. ainda mais porque hoje preciso ir ao unibanco encerrar minha conta. "nem parece que é banco." hohoho. quero só ver.

o encerramento da conta tem a ver com a minha mudança para o sul. nos primeiros minutos do primeiro tempo decidi transformar 2006 em ano sabático.

então ando angariando caixas de papelão no comércio santaceciliano, sem muito sucesso. meu maior accomplishment havia sido uma caixa de detergentes búfalo, tamanho médio.

aí ontem convidei dona faleiros para tomar um café durante o temporal, já engatando um pedido para ajudar a mendicância papeleira no futurama.

dona topou. dona é gatíssima, atrapalha o trânsito de santa cecília. arranca parabéns dos pedreiros em flor. "ô parabéns, você é liiiiinda." e dona tem um sotaque gaúcho que deixa a paulistanada zonza.

bueno, depois da chuva fomos lá no futurama. ela pediu as caixas. os hômi de verde do futurama encantados. inclusive nos levaram na mina de ouro das caixas de papelão, onde pudemos escolher o tamanho (pegamos três médias e três grandes, era tudo o que podíamos carregar).

no trajeto para casa uma papeleira profissa nos olhou com quilos de inveja.

ah, as mulheres. né, douglas?

*

bliss 2: cada vez mais impressionada com as habilidades poéticas de aimee mann.

You look like the perfect fit
For a girl in need of a tourniquet

de "save me".

e "save me from the ranks of the freaks who suspect they could never love anyone"? eu poderia incluir isso nas minhas preces, se rezasse. eu podia tomar um banho de sal grosso, também, se acreditasse nisso. haha. credo.

*
conclusão:

nas palavras de meu heterónimo português, joaquim medeiros: "minha vida afetiva é uma bosta tão grande que se eu escrevesse 'vai se foder, sua vaca', pelo menos 8 mugiriam atingidas."

quarta-feira, março 22, 2006



hoje li pela primeira vez o "folk tune", do joseph brodsky. quero deixar registrado porque já se tornou um dos meus poemas favoritos de todos os tempos.


We are parting for good, my friend, that's that.
Draw an empty circle on your yellow pad.
This will be me: no insides in thrall.
Stare at it a while, then erase the scrawl.



leia todo o poema aqui
si, podemos!

villa abecia, bolívia
mais uma das fotos geniais da minha ermãzinha
cosmic coswig mississipi

abriremos a janela mais tranqüilas para ver
não esse tanto de edifícios mas

vacas aparando a grama
galinhas arregaladas
galos em estacatos

abriremos a janela toda

não só uma fresta para a ver a vida besta
que se desenrosca amanhecida nos metrôs

porque lá só haverá tatus
underground

so haverá o blues
rural


para a tatá

segunda-feira, março 20, 2006

um poema de elisa andrade buzzo



elizabeth bishop + gato



Um gato de coleira! Um gato de coleira!
Você faz idéia do que isso pode render? Um gato de coleira!
Mayumi



Há gatos
sem eira
nem beira
sem casa
ração
na mesa
Mas há
também
há gatos
de coleira
que andam
onde bem
entendem
sem ter
vergonha
de seu
enorme
rabo preso.




(Do livro "Se Lá No Sol", Ed. 7 Letras, 2005. Elisa escreve no blog Calíope.)

domingo, março 19, 2006

poema pós-operatório

ex
em latim
fora de

daí algumas
criaturas parecem
ter sido

desentranhadas
de você

você passa na rua
e as reconhece

ei, ali vai minha
oitava costela!

era minha!

e aponta pra lacuna
no lado esquerdo

(cabe uma gaita
de boca)

olha só!


originalmente publicado no poetar com deadline

sábado, março 18, 2006

carlito azevedo deu uma nota sobre meu livro no caderno idéias do jornal do brasil, hoje:


Mas que tal comemorar o Dia da Poesia também prospectivamente, e não só em forma retrospectiva. Na novíssima geração de poetas que já aponta ali na esquina, há vozes de todos os tipos. Já falei aqui do Ricardo Domeneck, que é a voz pop-erudita da geração, e que depois de lançar o ótimo Carta aos anfíbios já tem, no prelo, o mais ótimo ainda Cadela sem logos. Falo então de Angélica Freitas, que é gaúcha, como Mario Quintana, apesar de viver em São Paulo, como Alckmin. Angie, como é chamada pelos amigos, seria a voz escrachada-erudita da geração. Seu livro Rilke shake é um dos mais esperados por quem acompanha de perto a poesia novíssima. Encerro os trabalhos com um trecho da série conhecida como “Na banheira, com Gertrude Stein”: “gertrude stein cabelo dos césares/ alice olhos negros de gipsy/ josephine baker djuna barnes/ nós cinco na sala de espelhos/ eu era alice e djuna era josephine/ gertrude stein era gertrude stein era gertrude stein/ na saída gertrude me puxou pelo braço/ e me disse muito zangada: não achei graça/ no que você publicou nos jornais/ me derrubaria como um tanque da wehrmacht/ não fosse por ezra que passeava ali com seu bel esprit/ lésbicas são um desperdício ele disse/ você já ouviu falar em mussolini? (...) vamos nos livrar de ezra pound?/ vamos imaginar ezra Pound/ insano numa jaula em pisa enquanto/ les americains comiam salsichas/ e peanut butter nas barracas/ ezra, dear ezra, who knows what cadence is?/ vamos nos livrar de marianne moore?”.

o livro deve sair lá pelo fim do ano. outubro, novembro. avisarei aqui.

sexta-feira, março 17, 2006

Estar afuera
& Estar à Frente


Em outubro do ano passado, a Virna Teixeira foi ao México participar do Primeiro Encontro de Poetas Ibero-americanos Jovens - Estoy Afuera. Tem um relato sobre o encontro na coluna que ela assina na Cronópios.

A viagem rendeu um poema:


aguafuerte

tequila, cerveza e cigarillos
mescalina, crânios de açúcar

bailavam: uma danza
de serpentes. quadro
espanhol, goya,
grotesco
vermelho y negro

desciam a calle
furiosos

pela noite mexicana


E reparem, no fim do texto para a Cronópios, que ela sugere um festival ibero-americano de poesia em São Paulo. Demorou! La Birna: sempre à frente.

quinta-feira, março 16, 2006

hit me baby one more time



anotem aí:

dia 6/4, às 19 horas, na casa das rosas, segunda leitura corpo a corpo com a poesia. é, a gente gostou tanto que vai ter repeteco. mais informações em breve. stay tuned!

quarta-feira, março 15, 2006

Um poema de Luiza Mendes Furia


amy cutler, "birding"


MATEMÁTICA PURA

Aos Furias

1

uma gaivota sobre o mar
é um polígono branco e dourado
sem medidas

como o meu desejo de voar

2

aquela árvore solitária
no topo da negra montanha

é um círculo com verdes ranhuras
que atravessa o céu

e enche tuas pupilas de sombras azuis

3

não me interessam as medidas
das nuvens nem das chuvas

o diâmetro da poça d’água
é uma questão ridícula

diante desta sede

4

o espelho côncavo
bebe o teu olhar

o espelho convexo
dilata o teu esgar

no espelho mínimo de ti
as perguntas se emaranham
com as células
numa forma estelar

que logaritmo expressa a tua angústia?

5

quantos catetos tem um catavento?
qual é a velocidade do vento nos catetos?
quantos coretos tem a tua infância?
que tipo de vento agitou as bandeirolas?

há alguma hipotenusa no salto do teu peito?

6

a teia prende os olhos
qual mosquito
em seus círculos

ângulos que se esgarçam
a aranha é um ponto deslocado
que representa o x da questão

7

a luz desta manhã
é incalculável

voraz o tempo
vai devorando seus dígitos

a noite engole os números
e fabrica mais uma equação do finito

8

alguém já tentou calcular
a raiz quadrada das rosas?

e se eu elevasse a voz dos pássaros ao cubo?




(do livro "inventário da solidão, ed. giordano, 1998. mais poemas aqui.)

terça-feira, março 14, 2006

repetindo: hoje, às 19h, na casa das rosas (av. paulista, 37), dia nacional da poesia, vamos lá. marcelo noah, dona faleiros e eu vamos. vamos lá. vamos não sentar nos muros, vamos não tirar fotografias da casa, vamos fumar um cigarrinho entre as roseiras. vamos torcer pro eduardo lacerda não ter colocado aquela minha foto tomando sorvete com o pedro tostes n'o casulo. vamos ler poemas. vamos ouvir poemas. vamos ler poemas no megafone do pedro tostes, ícone da poesia maloqueirista. depois vamos baixar no bh, charm e ibotirama, nesta ordem, e vão estar todos lotados. vamos lá.

segunda-feira, março 13, 2006

marcel dzama,
aquarela sobre papel,
sem título


queria
contigos contíguos
samplers não:
pra sempres



.



14/3 às 19h

amanhã é dia nacional da poesia e o projeto identidade está organizando uma invasão poética na casa das rosas. quem quiser ler alguma coisa, é só chegar. pra saber mais, clica aqui.

*

e também vai ser o lançamento do jornal "o casulo".
tem um poema meu lá.

*

recado dado, agora vou impedir o gato leo de destruir o que resta do sofá. ser mãe é padecer no paraíso, vou te contar.
heart of gold



neil young, 1971

domingo, março 12, 2006

meu coração, esse viado. mas eu gosto muito dele, viu? não tô me desfazendo. meu coração, esse viado, tem vocação pra pedreiro e sonha melhores construções verbais, castelinhos, catedrais.

*
sonolência por aí, uma sonolência poética ao arrastar os pés pela rua. é que tem pinga no meu tang, tem drummond no meu dramin.

sexta-feira, março 10, 2006



o céu é o limite
para elias
escalante


& a foto é da minha irmã
renata, que mora na bolívia.
mais fotos dela aqui
tô rouco, tô rouco a-haaa
meu amor



maria augusta, antônio, vera e josé
nos convidaram pra dançar um arrasta pé
se por acaso tu disser que não me quer
eu vou correndo arranjar outra mulher


a irresistível maria augusta, da banda APANHADOR SÓ.

ouça aqui.

segunda-feira, março 06, 2006

estouro:
tesouro

6/3/2005

domingo, março 05, 2006

1

para cantar ode à alegria
para comer macarronada
para explicar suplicar pespegar beijos
para morder chupar & outros arranjos

a boca

2

saudade é da língua
como tristeza
é pulmonar
saudade saliva
tristeza se exila
no alvéolo

3

para conversar
para conversar

4

o dente da malabarista
precisa da corda
como de repente
a corda se rompe

5

para
fazer silêncio

6

cuspir fogo

7

a boca

8

a boca é a mesma
na estrada,
pelotas - porto alegre,
janeiro de 2006


vuelvo al sur

vuelvo al sur
como se vuelve siempre al amor
vuelvo a vos
com mi deseo, con mi temor

llego al sur
como un destino del corazón
soy del sur
como los aires de un bandoneón

sueño el sur
inmensa luna, cielo al revés
busco el sur
el tiempo abierto y su después

quiero el sur
su buena gente, su dignidad
siento el sur
como tu cuerpo en la intimidad

vuelvo el sur
llego al sur

astor piazzolla/ fernando solanas

sábado, março 04, 2006

Para Lindsay

Vachel, as estrelas se apagaram
a escuridão caiu na estrada do Colorado
um automóvel rasteja lento na planície
pelo rádio ressoa o clangor do jazz na penumbra
o inconsolável caixeiro viajante acende mais um cigarro
Há 27 anos em outra cidade
eu vejo sua sombra na parede
você de suspensórios sentado na cama
a mão de sombra encosta uma pistola em sua cabeça
seu vulto cai no assoalho

Allen Ginsberg, traduzido por Claudio Willer
e o vitor ramil cantando isso me dá um nó na garganta.

quinta-feira, março 02, 2006




a vida nas banquisas

papai
faz duas semanas que o nosso navio
entalou na banquisa
do mar de weddell
estamos bem
mariana e eu
numa dieta à base
de pasta de amendoim
e quase nada
de pasta de dentes
lembra quando você dizia
não coma tanto
juliana?
vai virar um boto
juliana?
pra que tanto pernil
minha filha?
veja papai
agora viveremos
exclusivamente
da queima de pneus
& culotes
true
papai
estamos ficando mais
flácidas e los tetones
são os primeitos a derreter
na plataforma filchner-ronne
e talvez também o humor
dos rapazes
que no início da viagem
cacarejavam
OLHEM AS GORDAS
NO CONVÉS
quem ri por último
ri melhor
e te digo que todo
o doce de leite
valeu a pena
inclusive o arroz doce
o sorvete de milho
a paçoca e o pudim
quando mariana descobriu
no mapa
que o lugar mais próximo
daqui se chama
ILHAS SANDUÍCHE
DO SUL
pôs-se a rir tão
descontroladamente
que os demais passageiros
pediram sua remoção
do deck
mariana não deu um passo
e impassível informou a plebe
que do outro lado do continente
ficam as ILHAS MCDONALD
meu gato me sorriu latindo

um pardalzinho pousou aqui na janela. gosto de ver o peito estufado, os olhos muito pequenos e pretos, os pulinhos de lado enquanto se move pelo ferro enferrujado. me lembro dos gatos, em casa. devem estar dormindo. de pança pra cima no sofá. enroscados com o edredom. o pardalzinho não se demora, vai embora. calculo o tempo que falta pra abrir a porta e ser recebida por dois gatos cambaleantes de sono. wherever i keep my cats, that's home. não sei o que seria de mim sem os bichões. sem o juju, praticamente um coelho, uma coisa branca peluda, muito peluda. sem o leo, com seus dentinhos de vampiro, brincando com os cadarços dos meus allstar. sem a sofia, a gata mais compacta & pançuda a subir a serra (ela é de santos). livros, chá e gatos: que nunca me faltem.

*

I MISS MY DEAR CATS

[ Gregory Corso ]

My water-colored hands are catless now
seated here alone in the dark
my window-shaped head is bowed with sad draperies
I am catless near death almost
behind me my last cat hanging on the wall
dead of my hand drink bloated
And on all my other walls from attic to cellar
my sad life of cats hangs

quarta-feira, março 01, 2006

quarta-feira de cinzas no país


dia de ler "ash wednesday", do t.s. eliot.


dado o recado.