terça-feira, fevereiro 28, 2006

ringues polifônicos

everybody knows that our cities were made to be destroyed
caetano veloso

1.

entre ringues polifônicos e línguas multifábulas
entre facas afiadas e o elevado costa e silva
entre dumbo nas alturas e o cuspe na calçada
alça vôo a aventura na avenida angélica
e hoje de manhã trabalha e amanhã avacalha
a viação gato preto colando um chiclete
adams de menta no assento daqueles bancos de trás
entre ringues polifônicos e tênis alados
entre paulistas voadores e portadores esvoaçados
de baseados no bolso das calças jeans
entre o canteiro central da paulista e a vista do vão do masp
entre os que eu quero e os que queres de mins

2.

dos ringues polifônicos da cidade de são paulo:
entre valsas e velórios e invertidos convulsivos
entre a puta enaltecida e enrustidos explosivos
entre a abertura da boca e o último trem pra mooca
entre os ringues polifônicos e a queda da marquise
morreu ontem executada a poor elise

3.

poor elise era a dançarina e o caminhão do gás
era carro alegórico invadindo a manhã dos bairros
um tanto cedo para o samba no meu bairro onde
o gás vem encanado compulsório e taxado mês a mês
mas nada disso importa pro caminhão do gás

muito antes de baixarem salve o corinthians
campeão dos campeões nos celulares de ringues polifônicos
poor elise era a rainha das manhãs e o terror dos atônitos
que ao comprar botijões contando o troco raspando os bolsos
descobrem perdidas & douradas moedas de poucos euros
la manie du cinéma

virna mandou:

Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.

ai... lá vai:

1. falo com meus gatos. não chegamos a discutir a relação, mas pergunto se tá tudo bem, se eles querem uma massagem, mais comida, e que bicho estão tentando caçar. geralmente é uma mosquinha desavisada ou uma lagartixa que repetiu a primeira série trêis veiz.

2. quando chego a uma cidade nova, quero logo ir a uma livraria.

3. quando uma música gruda na cabeça feito bosta em tamanco, preciso ouvi-la para desgrudar.

4. por falar em bosta: quando estou passeando com amigos e tem um cocô de cachorro na calçada, costumo avisar: CUIDADO COM O COCÔ. como se eles não tivessem capacidade de acusar a escultura fecal em seu campo visual. mas isso só vale para o primeiro cocô du jour.

5. antes de sair de casa, sempre vejo pelo olho mágico se tem alguém no corredor. se tiver, espero ir embora. só depois pego o elevador. mas eu já consigo cumprimentar as pessoas na rua.

convido a fazer parte do festa da uva da vergonha alheia:

penkala, do cinematógrafo
marcelo, do coco loco
ticcia, versão megeras magérrimas
manzo, do iceberg imaginário
marco, do eu sou uma barata

sábado, fevereiro 25, 2006

dormitório

não um tapa
com luvas de pelica:
antes,
um escorpião
dentro da luva

não uma boca
que acaricia a curva:
antes,
uma vulva
que arde na boca



matambre

na fronteira com o uruguai
um pai obrigou a filha
a quem chamava rameira
a arranhar chocolates

a pequena tinha predileção
por barras nestlé sem passas
sem amêndoas só o
marrom do chocolate

o pai impôs canjicas
chás de laranjeira
a menina recusava
djo quiero tchocolate

fez amizade com o dono
do bolicho que vendia
quesos y cachaças y
algum chocolate nestlé

a princípio foi comprar
bolitas para o irmão
mas acabou conhecendo
o sistema de trocas

universal

o pai estalou o relho
relinchou & o bolicho ardeu
como palhoça
vietnamita em 72

à guria coube a punição
de arranhar chocolates
entre embalagens chorava
y dizia no puedo más

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

sashimi

sushiman, sushiman
por que mãos tão frias
sushiman

pra retalhar melhor
o peixe
sushiman

com facas
afiadas
sushiman

no sentido da
corrente
sushiman

ocupação tão masculina
sushiman

chora só suntory
whisky
sushiman

sushiman, sushiman
quando deita a cama
é um leito de arroz

e a noite é uma gata
que engole até a cabeça

sushiman
this just in

nove e meia da manhã eu estava no saguão do hotel hilton do morumbi para uma coletiva que foi cancelada aparentemente no meio da noite, quando uma borboleta pousou no pingolim de um chefe de estado no hemisfério norte e por trâmites caóticos o pouso influiu na bovespa, respingou nos marsupiais ao redor do mundo. não fui avisada. plantada no lobby feito um coqueiro de plástico esperando remoção. meu siemens a50 obviamente deslocado em meio a tantos motorolas rzrs, shiny plástico de hellos. dentro do hilton é sempre outono. hotel inóspito. mas o croissant é bom. comi um croissant e tomei um café. toca meu siemens a50. era a bat-táxi querendo saber em que torre do wtc ficava o hilton. ninguém ali para me responder. surge o patissier com uma bandeja de tortinhas de chocolate e frutas vermelhas. "em que torre estamos?" ele pousa a bandeja e aponta para a boca. é mudo. eu digo para a moça da bat-táxi que estou no hilton. santa paciência. torre norte, vai, torre norte. termino de comer meu croissant, pago, e a bat-táxi me liga novamente,

senhora angélica a senhora está dentro da nossa unidade? a unidade já está no aguardo.

a unidade estava na porta da torre norte. obviamente. fiz toda a volta e expliquei que estava no hilton. o motorista pediu desculpas e disse que fora instruído a me esperar na torre norte. eu disse tudo bem. ele me tratou com distinção a viagem inteira, a senhora isso, a senhora aquilo,

devia achar que eu estava hospedada lá,

e foi-se o tempo em que eu corrigia suspeição de enganos, problema de quem está pensando alguma coisa,

se os meus esforços ultimamente estão dirigidos para encaixotar as tralhas, dar o fora,

me instalar quieta com meus não-quero-mais.

*

imagina um eterno retorno disso. viver para sempre assim, empacotada. esperando um táxi. o estômago à temperatura ambiente (do hilton). vida sabor suco de tomate. estou com uma afta do tamanho de santa catarina,

à qual já não acodem os mais potentes sais.

*

escrevo para me lembrar depois. isto é geléia de angélica. vou espalhar no pão depois esta memória, pão velho de uns dois três dias. cioran: escreve-se não porque se tem algo a dizer, mas porque se quer dizer algo. quer dizer, eu quero.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

dois fragmentos: (1) tecnologia
(2) almoxarifado do incor


só um café para estender a singeleza desse momento: pop, mais um e-mail na conta, corro para a cozinha & pego um café, clique, ele se abre todo, flor papiro mensagem na garrafa. ah. ah. ah, não me diga. e me diga tudo. ah. e releio o conteúdo misturado com os goles do café passado às três da tarde. ah. me dê atenção banda larga, tuas palavras virando pacotes de informação trafegando pelos cabos, pelo emaranhado da fiação passando pelos estados unidos antes de chegar à baderna da minha mesa, informação de alta importância para duas entre 170 milhões.

penso em jabès que dizia: viver é aceitar a subversão do momento, viver é a subversão do momento? coisa assim. pois te digo que vivi? aceitei todas as subversões até meu estômago se revirar e não era ioga? chorei feito tonta naquela viagem de ônibus de volta e chorei tanto mais quando transformei meus blues em ponto final? beibe, você não precisa ser uma grande conhecedora de billie holiday pra cantarolar i get along without you very well toda vez que os cílios superiores encontram os inferiores. deslizo para gershwin. tenho todos os ritmos a começar pelo tumtum desregulado no tórax, i ain't got my girl but i ain't asking for anything more.

bonus track

ninguém atira água nas costas do pato mas sabe-se que ali água não entra. odyr: um dos meus devaneios: atirar um copo d'água guaraná vinho na cara de alguém. pois vez por outra imagino o contraste do líquido com a pele,

as oscilações no tecido

e a reação enquanto pouso mansamente o copo na mão do garçom.



ovejita de diós
u El Amor Es Algo Muy Distinto


entrei na papelaria
um dos mil estabelecimentos parados no tempo
em santa cecília
a fim de comprar papel de carta par avion
par avion para escrever uma carta leve
que pese pouco na consciência universal
pois sim
se for verdade esse negócio de carma
então
pedi os sedosos papéis par avion
com marca d'água et cetera

diga-me
diga-me preta
para quem estava apaixonada
você subiu bem devagar
aquele morro

lacro dentro do envelope
partículas
suspensas no ar
saídas das fossas nasais
dos pulmões
de nossas damas,
cavalheiros

terça-feira, fevereiro 21, 2006




si durmieras en Ramos Mejía
amada mía
qué despelote sería

cómo fuera yo a tus plantas
cómo esperara tranvías
cómo por llegar de noche
abordara a mediodía

qué despelote sería

con tu abuela enajenada
con tu hermana y sus manias
con tus primos capitanes
haciéndonos compañía

qué despelote sería

con tu madre en la ventana
con tu madre noche y día
con tu madre que nos tiende
su cama negra de hormigas

qué despelote sería

sin tus huecos en mis huecos
sin tus sombras en las mías
sin dedos con que golpear
el tambor de la agonía

si durmieras en Ramos Mejía
amada mía
qué despelote sería

qué despelote sería

amada

amada mía


susana thénon,
poeta argentina
1935-1991

sábado, fevereiro 18, 2006



elsa schiaparelli,
woman's sweater, summer 1929



enve
lope


leve
este
love

leve
leve
este

love

leve
leve
enve
love

quarta-feira, fevereiro 15, 2006



a designer surrealista elsa schiaparelli
& sua feather boa




o único
que me consolaria:
o ejetor de teias
do homem aranha
só lá no alto
entre prédios
não se veria
este coração
sem plumas

- algum vilão
por aí
usa uma
feather boa
made in
my heart -
só lá em cima
entre edifícios
com o aval
das pombas

uma criança
olha pra cima
mamãe, mamãe
é a mulher
aranha?
não seja tola
ela está
limpando
janelas

o único
que me consolaria:
o ejetor de teias
do homem aranha
só lá no alto
entre prédios
não se veria
um coração
sem planos

terça-feira, fevereiro 14, 2006

domingo, fevereiro 12, 2006

família vende tudo

família vende tudo
um avô com muito uso
um limoeiro
um cachorro cego de um olho
família vende tudo
por bem pouco dinheiro
um sofá de três lugares
três molduras circulares
família vende tudo
um pai engravatado
depois desempregado
e uma mãe cada vez mais gorda
do seu lado
família vende tudo
um número de telefone
tantas vezes cortado
um carrinho de supermercado
família vende tudo
uma empregada batista
uma prima surrealista
uma ascendência italiana & golpista
família vende tudo
trinta carcaças de peru (do natal)
e a fitinha que amarraram no pé do júnior
no hospital
família vende tudo
as crianças se formaram
o pai faliu
deve grana para o banco do brasil
vai ser uma grande desova
a casa era do avô
mas o avô tá com o pé na cova
família vende tudo
então já viu
no fim dá quinhentos contos
pra cada um
o júnior vai reformar a piscina
o pai vai abrir um negócio escuso
e pagar a vila alpina
pro seu pai com muito uso
família vende tudo
preços abaixo do mercado

sábado, fevereiro 11, 2006

bocê guarda a sua dor
en el fundo de la entranha
non fica fazendo manha
aguanta firme todo esse horror

bocê non finge u dolor que sente
real demais - parece ficción
a dor que dói sem doer nu corazón
nem bocê nem ninguém entende

bocê sofre calado la dor que non entende
transforma ela em rima
em mel, em olhos abertos, em endorfina
la dor quasi nem se siente

entre el futuro y tudo lo mais que embolorou
bocê esconde legal a sua dor


douglas diegues, o homem do portunhol selvagem, que conheci na mercearia são pedro numa linda noite chuvosabafada de fevereiro, e que muy generosamente me deu seu livro "uma flor na solapa da miséria", edição da elisa cartonera.

precioso.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006



essa e outras fotos de paulo jares aqui


*


vida aérea

o quanto você quer, me diga, com um frio na barriga,
proclamar norte onde seu nariz aponte, se livrar do
que não interessa, com força, abrir a cabeça,
meter os pés pelas mãos, com pressa,
não importa,

dinamitar a porta
& lamber a janela,
sentar no escombro ombro a ombro
com a obra

& me diga me diga, com um frio
na barriga, quanto tempo perdido,
quantos reais no bolso,
quantos livros não lidos, quandos minutos de espera,
quantos dentes cariados,

me diga o quanto você quer isso tudo
e para onde quer que envie,

se você quer que embrulhe.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

primeira leitura



casa das rosas, 8 de fevereiro.
obrigada por terem ido lá. :-)

manzo, obrigada pelas fotos.

vizi, obrigada pela gravação.

e ricardo, obrigada pelo convite.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

eu quero um ginsberg de pelúcia


em 1965, allen ginsberg foi coroado rei
de maio pelos estudantes em praga.
foi expulso do país pelas otoridades
na seqüencinha. esqueçam por um momento que
ele era um baita misógino e reparem na fofura
do indivíduo. o que seria da minha vida
sem os escritores gays?

domingo, fevereiro 05, 2006

Far from these slanderous fools who mock my life



estátua de oscar wilde, em dublin.
foto do meu amigo max rodrigues.


TAEDIUM VITAE

TO stab my youth with desperate knives, to wear

This paltry age’s gaudy livery,

To let each base hand filch my treasury,

To mesh my soul within a woman’s hair,

And be mere Fortune’s lackeyed groom,—I swear

I love it not! these things are less to me

Than the thin foam that frets upon the sea,

Less than the thistle-down of summer air

Which hath no seed: better to stand aloof

Far from these slanderous fools who mock my life

Knowing me not, better the lowliest roof

Fit for the meanest hind to sojourn in,

Than to go back to that hoarse cave of strife

Where my white soul first kissed the mouth of sin.


-Oscar Wilde-

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

os ingleses vão
fazer desabar
um céu de marmelada
sobre uma catedral de torradas
construída por druídas
com alguma ajuda das fadas
nas highlands escocesas
só com abóboras acesas
how marvelous!,
os ingleses vão exclamar
uns virão por terra
e outros virão pelo chá.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

vramvramcabum


nem o médio ' nem engodo) ' voar ' anular há engodo) ' em médio ' engodo) ' voar ' em há em há ao levitar: ' em médio ' tédio ' levitar: ' para nem fala (puro fala método ' médio ' não nem
remédio ' em levitar: ' (puro nem (puro nem fala (puro não em levitar: ' engodo) ' levitar: ' para voar ' método ' fala do tédio ' não anular há engodo) ' nem pra voar ' ao método ' do anular em
tédio ' (puro para método ' engodo) ' fala fala remédio ' dedo nem voar remédio ' remédio '

levitar: ' levitar: '

quarta-feira, fevereiro 01, 2006



ricardo domeneck me convidou pra ler uns poemas na casa das rosas, dia 8, às 19 horas (quarta que vem). aí em cima está o flyer da minha querida vizinha dona faleiros (obrigada, vizi, estou te devendo 215 cafés). cliquem nele. a cada clicada você vai estar desviando US$ 100 diretamente de polpudas contas em paraísos fiscais do caribe para um fundo de poesia internacional situado aqui mesmo na santa cecília. vai ser minha primeira leitura, e já ao lado de gente muito boa: marília garcia, lucía bianco, heitor ferraz, fabiano calixto, tarso de melo, cristian de nápoli. e do domeneck, que me fez começar a ler wittgenstein. compareçam. se pá eu até pago umas cervejas pra vocês depois. ó!