sexta-feira, setembro 30, 2005

paisagem eléctrica

um quadrado azul calcinha raiando no canto direito da tela
with your name in it

meu amor meu novo amor meu antigo amor meu amor

quero o teu qwertyuiop
o teu qwertyuiop

que eu tô ligada à toa feito lua de dia

quinta-feira, setembro 29, 2005

acho que meu livro vai se chamar "construa seu castelo e me chame para tomar chá no salão principal".

mas esse título deveria ser da minha autobiografia.

biografia, porque não vou escrever memórias.

já me basta escrever poemas.

*

you might as well live.

terça-feira, setembro 27, 2005

crónicas da vaca fria

Graças a Barthes, não estou interessada em ser escritora. Estou interessada em ser (e em estar). Neste mundo e no outro. Na Terra e no Céu. Horroriza-me fazer prosa que não seja rente ao viver, ao ser. Escrevo como ando. Não escrevo o que me vem à cabeça, escrevo o que me vem à mão. Escrevo à mão, com uma Bic Soft Feel Roller preta, sobre uma folha A4 de papel reciclado cor-de-rosa. Barthes criticou aquilo a que chamou "o estilo Bic". O meu estilo é estilo Bic Soft Feel Roller. Mudou a Bic: mudou o estilete, mudou o estilo. Como se pode dizer de uma caneta, de uma cadeira, de uma saia, de uma pulseira, digo da minha prosa que ela é confortável. Porque me sinto bem a vesti-la, a andar com ela (a escrevê-la e a publicá-la). Posso fazer uma flor: a minha prosa é confortável porque me conforta.


trecho de crônica de Adília Lopes, poeta portuguesa
mais aqui
Autobiographia Literaria

Frank O'Hara

When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.

I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.

If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried out "I am
an orphan."

And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!

segunda-feira, setembro 26, 2005

a poesia não (googlecolagem)

A poesia não é uma coisa idiota a poesia não é uma opção A poesia não é só linguagem a poesia, não

A poesia não é para ser entendida A poesia não é uma ciência exacta a poesia não é arma A poesia não é mais de Orfeu

A poesia não é diferente a poesia não é um casamento A Poesia não é um sentido a poesia não é, nunca foi

A poesia não é escolha A Poesia

A poesia não é nem quer ser mercadoria

“A poesia não é uma força de choque. É uma força de ocupação.” Mas a poesia não é a revelação do real? poesia não é a arte do objeto a poesia não é mero artifício

a poesia não é de Castro Alves, como pensam muitas pessoas

a poesia não é mais representativa a poesia não é uma ocupação permanente a poesia não é um espelho Não, a poesia não é uma arte contemplativa

A poesia não é uma coisa idiota a poesia não é algo que possa utilizar-se como trombeta A poesia não é uma questão de sentimentos a poesia não é feita (diretamente) de idéias mas de palavras (estas, sim, portadoras daquelas)

As pessoas nem sempre percebem que a poesia não é mero entretenimento, brincadeirinha literária inconseqüente

Já a poesia não.

domingo, setembro 25, 2005

I know a man

Robert Creeley

As I sd to my
friend, because I am
always talking,--John, I

sd, which was not his
name, the darkness sur-
rounds us, what

can we do against
it, or else, shall we &
why not, buy a goddamn big car,

drive, he sd, for
christ's sake, look
out where yr going.
allen ginsberg

nunca fui aos estados unidos. quando for, gostaria de respirar em paterson, new jersey. de new jersey saíram dois poetas favoritos: allen ginsberg e william carlos williams. w.c.w., aliás, escreveu um livro chamado "paterson". a.g. foi influenciado por e teve contato com w.c.w..

também gostaria de respirar em boulder, colorado, e participar da jack kerouac school of disembodied poetics, criada pelo ginsberg e pela poeta anne waldman (também de new jersey). ok, isso cheira a muito patchuli, mas deve ser divertido.

almas caridosas colocaram na internet o CELESTIAL HOMEWORK, roteiro de leituras proposto por ginsberg a seus alunos em 1977. essas mesmas almas caridosas colocaram links para textos disponíveis na internet e escanearam o roteiro original (por que vale a pena olhar: ginsberg puxou a orelha dos alunos; colocou ao lado de cada título o número de alunos que leram). descobri quando fui procurar a relação entre a.g. e christopher smart. sim, a.g. leu c.s..


*

pra quem nunca leu william carlos williams, aqui vão dois poemas famosos:


the red wheelbarrow

so much depends
upon

a red wheel
barrow

glazed with rain
water

beside the white
chickens.


§


This is just to say

I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold
escrever é esforço

148 leitores me escreveram (xicaradecha@gmail.com) comentando o template novo e 76 perguntaram se eu recomendaria o livro da mary oliver. obrigada, queridos, nesta vida tudo evolui, inclusive angélica freitas e sua resistente espécie-de-diário-eletrônico-&-desovador-de-poemas. quanto a mary oliver, devo dizer: nossa acquaintance se deu na amazon.com, enquanto eu procurava por livros sobre poesia.

a amazon deixa você ler as primeiras páginas, então li. concordo com m.oliver, a gente precisa ler e muito quem escreveu antes de nós. até pra dizer "não gosto" com propriedade. leitura aprofundada de alguns escritores pode fazer você querer de volta o pau que pagou em 36 vezes. se for o caso e se você estiver no orkut, entre na comunidade exus literários, mais um empreendimento batatas freitas ltda.

tenho pensado muito em matar este blog, em cometer orkuticídio. de concreto, só desinstalei o messenger no meu trabalho. mas bons amigos chegaram a mim, e eu até eles, pelo blog e pelo orkut. por isso continuo.

quanto ao blog, quem me acompanha (marcelo soares? e mãe, tu lê o meu blog?) desde 2002 sabe, tenho escrito basicamente (sobre) poesia. queria escrever mais intensivamente sobre poesia, repartir mais achados com vocês. porque eu vivo achando coisas o tempo inteiro. é verdade. ontem li pela primeira vez na vida o christopher smart. e ele tem um poema no qual fala de seu gato jeoffrey, de 1792, eu curti. aposto que o ginsberg leu c.s.! conta a internet que o c.s. foi expulso de um hospício por rezar demais.


*

eu não comento poesia


essa é uma de minhas piadas internas, mas acho meio sei lá quando alguém se propõe a contar como surgiu um poema qualquer num sarau, sem ninguém ter indagado a respeito. vale se a história for inédita: "um tubarão havia comido metade da minha bunda & eu estava semi-sedada num hospital na costa do marfim quando escrevi este poema".

e vale, é claro, quando o poema for genial.


*

cancioneiro popular


perde o amigo mas não perde o poema.

sábado, setembro 24, 2005

Most of what calls itself contemporary is built, whether it knows it or not, out of a desire to be liked. It is created in imitation of what already exists and is already admired. There is, in other words, nothing new about it. To be contemporary is to rise through the stack of the past, like the fire through the mountain. Only a heart so deeply and intelligently born can carry a new idea into the air.


Mary Oliver, em A Poetry Handbook


.contexto: para mary oliver, a gente deve ler os velhos -- machado, li po, christopher smart. "the truly contemporary creative force is something that is built out of the past, but with a difference."

.um poema de m.oliver: poppies: (...)But I also say this: that light/is an invitation/to happiness,/and that happiness,/when it's done right,/is a kind of holiness,/palpable and redemptive./(...)/and what are you going to do—/what can you do/about it—/deep, blue night?

.outro poema de m.oliver, gostei muito: that sweet flute john clare: (...)"Woolf, on her way to the river (...)

sexta-feira, setembro 23, 2005

manual de salvamento & estilo

o furacão katrina pôs as intempéries de são paulo
em seu devido lugar: bueiros. aqui não é nova orleans
não temos dixieland e a imprensa escrita cansada
se debruça em googlemaps: aqui o tietê ali o rio pinheiros
acolá o pacaembu. tão bonito lá dos satélites!

a associação de lojistas da oscar freire mandou
equipe aos E.U.A. com máscaras maskaras
e máquinas digitais. se temos cow parade teremos
salvamento e dilúvio. nessa ordem. & também por isso
a daslu investe numa barcaça de ouro puro (it floats!).

quinta-feira, setembro 22, 2005

é bonito quando back in the ussr acaba e dear prudence começa.
meu ginsberg chegou.

terça-feira, setembro 20, 2005

¡que viva la ciencia, que viva la poesía!¡qué viva siento mi lengua cuando tu lengua está sobre la lengua mía! el agua está en el barro, el barro en el ladrillo, el ladrillo está en la pared y en la pared tu fotografía / es cierto que no hay arte sin emoción, y que no hay precisión sin artesanía / como tampoco hay guitarras sin tecnología / tecnología del nylon para las primas tecnología del metal para el clavijero / la prensa, la gubia y el barniz : las herramientas del carpintero

el cantautor y su computadora, el pastor y su afeitadora, el despertador que ya está anunciando la aurora / y en el telescopio se demora la última estrella /la máquina la hace el hombre……..y es lo que el hombre hace con ella

el arado, la rueda, el molino / la mesa en que apoyo el vaso de vino / las curvas de la motaña rusa / la semicorchea y hasta la semifusa / el té, los odenadores y los espejos / los lentes para ver de cerca y de lejos / la cucha del perro, la mantequilla / la yerba, el mate y la bombillaestás conmigo / estamos cantando a la sombra de nuestra parra / una canción que dice que uno sólo conserva lo que no amarra / y sin tenerte, te tengo a vos y tengo a mi guitarra

hay tantas cosas / yo sólo preciso dos: mi guitarra y vos / mi guitarra y vos


hay cines / hay trenes / hay cacerolas / hay fórmulas hasta para describir la espiral de una caracola / hay más: hay créditos / tráfico / cláusulas / salas vip / hay cápsulas hipnóticas y tomografías computarizadas / hay condiciones para la constitución de una sociedad limitada / hay biberones y hay obúses / hay tabúes / hay besos / hay hambre y hay sobrepeso / hay curas de sueño y tisanas/ hay drogas de diseño y perros adictos a las drogas en las aduanas/ hay-manos-capaces-de-fabricar-herramientas-con-las-que-se-hacen-máquinas-para-hacer-ordenadores-que-a-su-vez-diseñan-máquinas-que-hacen-herramientas-para-que-las-use-la-mano

hay escritas infinitas palabras:
zen gol bang rap Dios fin


hay tantas cosas / yo sólo preciso dos: mi guitarra y vos / mi guitarra y vos


mi guitarra y vos, jorge drexler

sexta-feira, setembro 16, 2005

fridge poetry

se você é daquelas crianças que não têm fridge poetry (aqueles ímãs com palavras), não chore mais. vai na poetry library. o resultado final você pode estar enviando pros entes queridos.
em noite de núpcias
a confissão do barítono y
à soprano j (virgem do ouvido)


e sobretudo eu ronco
sei isto é pouco romântico
se o som não cruza o atlântico
beija a orla do pacífico

sou uma serra no tronco
ronco eu sei eu digo
ronco amada amante
é trepidante dormir comigo

proposta, por marco dutra
minas gerais


a pia pinga
até a medula a pia pinga

galo canta a pia pinga
noite dia pinga pinga

você cresceu você casou
houve um golpe militar

a pia pinga e o menino
da esquina virou padre

a pia pinga

a pia pinga toda
a caixa d'água

quinta-feira, setembro 15, 2005

lucida sans serif

o satélite de luz natural
afirmou à imprensa galáctica
não temer chuvas de asteróides

‘os cometas, que piada’

disse ainda desconhecer a inveja
e aos astros mais desastrados
disse ‘gravitem em torno de mim’

terça-feira, setembro 13, 2005

Nothing Matters When We're Dancing
the magnetic fields

Dance with me, my old friend, once before we go. Let's pretend this song won't end and we never have to go home, and we'll dance among the chandeliers. And nothing matters when we're dancing. In tat or tatters you're entrancing. Be we in Paris or in Lansing, nothing matters when we're dancing. You've never been more beautiful--your eyes like two full moons--than here in this poor old dancehall among the dreadful tunes, the awful songs we don't even hear.

isso é o que vejo da janela
da redação. o balé dos carros
nesse hotel aí.

domingo, setembro 11, 2005

angelica diz:
preciso que o meu ginsberg chegue logo
angelica diz:
tô de mal com o pound
angelica diz:
e não dá pra conversar direito com o eliot, e a marianne moore tem pobremas mentais
the magnetic fields é a minha banda favorita das últimas 24 horas. tudo começou miss top banana in the shock department dizendo "você tem que ouvir, é a sua cara". "absolutely cuckoo", "a chicken with its head cut off", "the cactus where your heart should be" e "come back from san francisco" são as minhas favoritas destas 15 que baixei. e, ah, claro, "how fucking romantic".


Come back from San Francisco
It can't be all that pretty, when all of New York City misses you
Should pretty boys in discos distract you from your novel,
remember I'm awful in love with you.

You need me like the wind needs the trees to blow in
Like the moon needs poetry, you need me

Come back from San Francisco and kiss me;
I've quit smoking. I miss doing the wild thing with you

Will you stay? I don't think so,
but all I do is worry, pack bags, call cabs, and hurry home to me

When you betray me, betray me with a kiss.
Damn you. I've never stayed up as late as this

sábado, setembro 10, 2005

quarta-feira, setembro 07, 2005

meu ts eliot está marcado
com um cigarro que acendi do lado errado

terça-feira, setembro 06, 2005

não consigo ler 'os cantos'


vamos nos livrar de ezra pound?
vamos imaginar ezra pound
insano numa jaula em pisa enquanto
les americains comiam salsichas
e peanut butter nas barracas
ezra, dear ezra, who knows what cadence is?
vamos nos livrar de marianne moore?

segunda-feira, setembro 05, 2005

SAINT-PAUL

J'adore cette ville
Saint-Paul est selon mon coeur
Ici nulle tradition
Aucun préjugé
Ni ancien ni moderne
Seuls comptent cet appétit furieux cette confiance absolue cet optimisme cette audace ce travail ce labeur cette spéculation qui font construire dix maisons par heure de tous styles ridicules grotesques beaux grands petits nord sud égyptien yankee cubiste
Sans autre préoccupation que de suivre les statistiques
prévoir l'avenir le confort l'utilité la plus-value et d'attirer une grosse immigration
Touse les pays
Tous les peuples
J'aime ça
Les deux trois vieilles maisons portugaises qui restent sont des faïences bleues


(Blaise Cendrars)

domingo, setembro 04, 2005

(canção para uma mulher
num quadro de hopper)

ela toma amor
como remédio
um, mais outro,
até depois
não quer um mapa
pra se guiar
nem instruções
prum coração azul
bom seria
se viessem com aviso
melhor seria
se viessem pra ficar
ela fica ali na mesa
um café forte
e interrogações
ela o vê lá fora
sob a chuva
mas isso é depois




(mulher num quadro de hopper)

não quero mapa pra me guiar nem instruções prum coração azul
nem lanterna de madrugada nem janela no corredor

alguns procedimentos vão mesmo assim às cegas

bom seria se viessem com um aviso
melhor seria se viessem pra ficar

tomo amor como um remédio
um mais outro até depois

eu fico aqui fico na mesma
um café forte e interrogações

olha é você lá fora sob a chuva mas isso é depois

sábado, setembro 03, 2005


el mundo gira al revés
mientras miras esos ojos de videotape

sexta-feira, setembro 02, 2005

fingir de conta (def): dissimular assim muito profissionalmente. nonchalance total. nem ahs nem ohs. mínimo movimento facial.

quinta-feira, setembro 01, 2005