segunda-feira, maio 19, 2003

Paisagem N.º 3

Mário de Andrade

Chove ?
Sorri uma garoa cor de cinza,
Muito triste, como um tristemente longo...
A casa de Kosmos não tem impermeáveis em liquidação...
Mas neste largo do Arouche
Posso abrir meu guarda-chuva paradoxal,
Este lírico plátano de rendas mar...

Ali em frente...- Mário, põe a máscara!
- Tens razão, minha Loucura, tens razão.
O rei de Tule jogou a taça ao mar...

Os homens passam encharcados...
Os reflexos dos vultos curtos
Mancham o petit-pavé...
As rolas da Normal
Esvoaçam entre os dedos da garoa...
( E si pusesse um verso de Crisfal
No De Profundis?... )
De repente
Um raio de Sol arisco
Risca o chuvisco ao meio.

(Roubado do blog da Dani Ramos)

terça-feira, maio 13, 2003

Barroco
(Vitor Ramil)

Eu tô girando pelo quarto
Olhando o teto abobadado
No centro exato de um palácio
Com dez mil nobres no meu rastro
Eu vejo o ouro brasileiro
O terremoto de Lisboa
Os espanhóis sonhando o mundo
Os jesuitas no meu rastro

No claro-escuro
É que ela me vê
E diz assim:
"Sai daí, vem pra mim
O paraíso fica aqui"
Eu, dividido, digo:
"Se eu tiver que ler tudo do Barroco
Que tempo vai sobrar pra minha nêga?"

Jerusalém foi libertada
O Conde Orgaz bateu as botas
Os santos sobem pelos ares
Santa Teresa no meu rastro
Vejo cabelos no retrato
Um movimento me arrebata
É Pedro, o Grande, em seu cavalo
Trezentos frades no meu rastro

No claro-escuro
É que ela me vê
E diz assim:
"Sai daí, vem pra mim
O paraíso fica aqui"
Eu, dividido, digo:
"Se eu tiver que ler tudo do Barroco
Que tempo vai sobrar pra minha nêga?"

Tenho jardins à minha volta
O povo longe, além das grades
Mas Holandeses que me azaram
E tenebrosos no meu rastro
Tô violento e apaixonado
Absoluto e perturbado
É que tem ecos pela sala
De alguém Furioso no meu rastro

No claro-escuro
É que ela me vê
E diz assim:
"Sai daí, vem pra mim
O paraíso fica aqui"
Eu, dividido, digo:
"Se eu tiver que ler tudo do Barroco
Que tempo vai sobrar pra minha nêga?"

sexta-feira, maio 09, 2003

vênus tripartite pegou pneumonia
teve de fazer uma série de exames
no hospital das clínicas
passou mal no táxi que a levava
a uma confeitaria no centro velho
e sofreu a engolir pílulas
as quais sabia: não tinham efeito
o peito rangia mais que porta de saloon
ela murmurava que não tinha mais tempo

mas o pior foi agüentar os colegas
achando que isso era desculpa
para faltar ao trabalho
numa sexta-ensolarada

Amores pulgos

THE FLEA.
by John Donne

MARK but this flea, and mark in this,
How little that which thou deniest me is ;
It suck'd me first, and now sucks thee,
And in this flea our two bloods mingled be.
Thou know'st that this cannot be said
A sin, nor shame, nor loss of maidenhead ;
Yet this enjoys before it woo,
And pamper'd swells with one blood made of two ;
And this, alas ! is more than we would do.

O stay, three lives in one flea spare,
Where we almost, yea, more than married are.
This flea is you and I, and this
Our marriage bed, and marriage temple is.
Though parents grudge, and you, we're met,
And cloister'd in these living walls of jet.
Though use make you apt to kill me,
Let not to that self-murder added be,
And sacrilege, three sins in killing three.

Cruel and sudden, hast thou since
Purpled thy nail in blood of innocence?
Wherein could this flea guilty be,
Except in that drop which it suck'd from thee?
Yet thou triumph'st, and say'st that thou
Find'st not thyself nor me the weaker now.
'Tis true ; then learn how false fears be ;
Just so much honour, when thou yield'st to me,
Will waste, as this flea's death took life from thee.


quinta-feira, maio 08, 2003

Cassiano Ricardo

Relâmpago

A onça pintada saltou tronco acima que nem um relâmpago
de rabo comprido e cabeça amarela:
Zás!
Mas uma flecha ainda mais rápida que o relâmpago fez
rolar ali mesmo
Aquele matinal gatão elétrico e bigodudo
Que ficou estendido no chão feito um fruto de cor
que tivesse caído de uma árvore!

quarta-feira, maio 07, 2003

Joaquim Cardozo

Visão do Último Trem Subindo ao Céu

II

As locomotivas na rotunda
Olhavam para a noite do pátio da noite, imóveis, silenciosas
— Molossos deitados, dóceis, esperando: os olhos apagados os
[faróis.

Qual seria, seria, qual dentre elas
A que conduziria aquele trem, aquele que era o trem
E o último seria?
Qual delas ouviria a voz do Senhor?

Quando houve um trilo no ar: uma luz brilhou
No ar noturno — carvão do dia —
E uma dentre todas sentiu, de repente,
O alento do calor;
Alento que se estendeu do fogo,
E que lhe veio em sangue ardente,
Em respiração rumorosa de brancos vapores.

Uma dentre elas
Que era preta, violentamente, luzidia;
Que era preta, vagarosamente preta;

Preta e lentamente e luzidia;
Avançando, transpôs o virador;
E foi!
Foi um touro selvagem a princípio
Depois se fez um boi pesado e manso
Correndo as linhas de trilhos: as fitas, os fios, os trilhos de
[linha.
À sua aproximação as agulhas se abriram —
Porteiras de um curral — furos do espaço, aberturas
Para distâncias possíveis... aberturas, costuras
De rápidas passagens em direções ocultas.
Pouco e pouco, mais pouco, pouco a pouco
Ao trem se atrela, ao trem ligando o engate, os freios
Ajustando... ao trem disposto ao longo
Da plataforma — platimorfa, platibanda, alegrete
Canteiro cultivado — florido de gente.

E logo e depois, justo depois ficou imóvel
À espera, no ante-ritmo da espera
No anseio da esperaesperança:
Harmônicos da espera (intervalo! Vocalises do intervalo).

— Foi assim que se fez a composição daquele trem.
Daquele que era o trem, e o último seria.


Publicado no livro Poesias Completas (1971). Poema composto de onze partes.

Este post, poema de um engenheiro, é para FSerb e Henrique Murilo.



para ser escrito numa porta de banheiro da rodoviária de crato (ceará): "o amor, essa duença"

é o amor uma duença?
se for, dela padeço
nessa duença eu cresço
sem haver convalescença

seu moço, ai como eu sofro
dessa duença sufrida
dessa duença duída
dessa duença gozosa

sem cura, o médico disse
e não é semvergonhice
é duença verdadeira
começa segunda-feira

e não acaba no domingo
não acaba nem no bingo
nem comendo macaxeira

não acaba nunca a maldita
é como aqueles toca-fita
com o pudê de autorreverse:

e vai tocando o meu curação
lado a lado b, lou reed meets agepê
e deixa que os dois converse.

(este puema eu dedico à srta. delaney)


olhando de relance nesse vidro
eu até que fico parecida com você